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Direito em Cenas: Corra!

(Get Out, EUA, 2017)
  • Gênero: Terror
  • Direção: Jordan Peele
  • Roteiro: tt5052448
  • Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener
  • Duração: 104 minutos

O longa metragem de terror dirigido por Jordan Peele, vencedor de inúmeros prêmios em 2017 e 2018, como Melhor Roteiro Original e Melhor Filme de Ficção Científica/Terror, pela Critics’ Choice Award; Melhor Terror, pela Empire Awards, e, ainda, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original de 2018, ganhou espaço nas telonas em 2017 e trabalhou o lado mais sombrio do racismo estrutural.

O filme conta a história de Chris Washington (Daniel Kaluuya), um fotógrafo negro que namora Rose Armitage (Allison Williams), e decide conhecer os pais da namorada, Dean Armitage (Bradley Whitford) e Missy Armitage (Catherine Keener), mas acaba tendo uma surpresa desagradável ao reparar a forma diferenciada que a família de brancos trata os negros com quem se envolve, passando a viver um terror em busca de sua sobrevivência e sanidade mental.

Tirando os olhos das telas e voltando à realidade, é possível perceber o retrato caricaturesco que Peele fez da sociedade norte-americana, mormente quando se tem em mente que nessa sociedade foram desenvolvidas medidas higienistas, na tentativa de extinguir os negros, ou mantê-los à margem da sociedade, encarcerando-os ou simplesmente os matando, de maneira tal que, em que pese ter “acabado” a escravidão no país, inúmeros negros ainda são escravizados, em razão de uma norma federal, conhecida como a 13ª Emenda.

Se, durante a escravidão – bem como se deu no Brasil -, os negros foram objetificados para servirem ao deleite de seus senhores, cumprindo ordens, realizando trabalhos braçais degradantes e desumanos, e satisfazendo os desejos sexuais dos senhores, após o fim do período escravagista, não se mediram esforços para que esses negros continuassem sendo etiquetados, marginalizados e objetificados.

Corra

Analisando a realidade norte-americana e, obviamente, a brasileira, é possível ver a criação de leis que tinham o intuito único de afastar a cultura negra da cultura geral, com a proibição de formas de expressões artísticas e culturais (ex.: o Código Penal de 1890 vedava o jogo de capoeira) e as criações de normas sociais padronizadas, que excluíam o corpo preto, e todas as suas particularidades, daquilo que se considerava belo.

Nesse contexto de apagamento negro, foram milhares de pessoas pretas que tentaram se reconstruir, para caber nos padrões brancos, surgindo um movimento de branqueamento de pessoas negras, através do ensinamento aos negros, de que a raça branca era superior; e um movimento de colorismo, que dividia os próprios negros, com base na ideologia supremacista branca, dizendo aos pretos de pele clara que eles eram superiores aos de pele escura, mas que jamais se igualariam aos brancos – “nem pretos, pois claros demais; nem brancos, pois pretos demais” -, tudo com a intenção de causar um afastamento dos próprios pretos, e evitar organizações contra as imposições sociais brancas.

O afastamento dos pretos, obviamente, acarretou na tão esperada marginalização do grupo, que deixou de conseguir vagas em locais de trabalho ou em universidades, não por demérito, mas sim em razão da cor de suas peles, ou de características particulares que os enquadravam como “fora do padrão branco”, fazendo, portanto, surgir a necessidade de adequação do próprio preto aos padrões sociais, afinal, eles jamais conseguiriam um emprego “com aquelas roupas”, ou “com aquele cabelo”.

O comportamento dos negros oprimidos de tentar se encaixar no padrão social é visto como uma clara tentativa de sobrevivência, afinal, quanto menos traços negros detivessem esses indivíduos, menor seriam suas chances de sofrer abusos físicos ou psicológicos, ou de serem abordados de forma truculenta por “agentes do Estado”, que foram educados a higienizar o País, tornando-o mais branco, ou “Tornando-o Grande Novamente”.

Enquanto a ideologia do branqueamento de negros corria de forma não tão velada, os brancos não mediram esforços para retornar ao status quo na objetificação dos homens e mulheres negros: se, outrora, a mulher negra era objeto de satisfação do desejo sexual de seus senhores, agora as suas “ancas largas” e “seios fartos” se tornaram objeto de desejo sexual dos adultos e adolescentes branco; enquanto o corpo masculino negro e musculoso passou a ser o objeto de desejo sexual das mulheres e meninas brancas.

Corra

O negro voltou a ser visto como forma de entretenimento à classe dominante branca, quer com suas músicas, e sua habilidade vocal; quer com suas danças e seus corpos sexualizados; quer com suas habilidades desportivas, e é exatamente disso que trata a caricatura representada em Corra, um dos filmes de terror com maior crítica social jamais vista.

É importante destacar, ainda, que no processo de branqueamento e colorismo, não houve espaço para os “rebeldes”, assim como não havia para os escravos. Aqueles pretos que se rebelam contra o sistema, assumem seus cabelos crespos, suas vestes coloridas, ou seus traços e padrões culturais afrodescendentes ainda são considerados homens das cavernas por brancos que “nunca fazem por mal” quando os assemelham a seres primitivos.

Nesse contexto, a mulher negra que vende milhares de CDs enquanto usa seu cabelo alisado e vestidos que realçam suas curvas, causa impacto quando assume seu cabelo natural e faz uma música que diz abertamente “gosto do cabelo do meu bebê, com cabelo de bebês afro; eu gosto do meu nariz negro com narinas do Jackson Five”. E causa impacto quando um professor de história entra em reality show com seu black power empoderado.

O grande ponto, tratado no filme e também visto na sociedade, é que quando esses “rebeldes” deixam de se enquadrar nos padrões impostos pela classe dominante branca, e deixam de servir como objetos de deleite de brancos, eles passam a ser vistos como um problema e, portanto, são atacados de forma vil, calculista e desumana. São assediados, abusados mentalmente, torturados psicologicamente, até que aprendam a aceitar as imposições brancas, ou são mortos por não se curvarem a tais imposições.

Corra

E aqueles pretos que conseguem sobreviver e continuar existindo e resistindo, mostrando ao mundo sua dor e sua luta, são subjugados pela branquitude, que faz tudo o que estiver a seu alcance para os manter marginalizados, quer chamando sua luta e dor de “mimimi”, quer lhes impondo a obrigação de educá-los, sob pena de taxá-los de “rebeldes” novamente.

A branquitude se esquece, contudo, que não é a obrigação de nenhum preto ser objeto de deleite de branco; não é obrigação de nenhum preto se moldar por padrões sócio-culturais brancos; nem, muito menos, é papel dos pretos educar nós, brancos, que nunca tivemos qualquer dificuldade de acessar livros e internet, sobre o que é racismo e suas formas de consumação.

A título de curiosidade: consiste em crime de racismo a mitigação, por qualquer forma, dos direitos de um indivíduo em razão de sua raça (abrangendo direitos à vida; de ir e vir; de liberdade; de manifestação do pensamento; e etc.) e consiste em injúria racial ofender alguém utilizando elementos referentes a raça, cor ou etnia. 

Ao crime de racismo, atribui-se a pena de reclusão que varia de 2 a 5 anos; 3 a 5 anos; 1 a 3 anos; ou 2 a 4 anos, a depender do tipo de violação de direito perpetrada (Lei Nº 7.716); ao crime de injúria racial, a pena é de reclusão de 1 a 3 anos e multa (art. 140, Código Penal).

Daniela Strieder

Advogada e ioguim, Daniela está sempre com a cabeça nas nuvens, criando e inventando histórias, mas não deixa de ter os pés na terra. Fã de cinema desde pequenina, tem um fraco por trilhas sonoras.
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