Crítica | Cinema

Dois + Dois

O equilíbrio de Saback

(Dois + Dois, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Marcelo Saback
  • Roteiro: Laura Malin, Marcelo Saback
  • Elenco: Carol Castro, Ilana Kaplan, Marcelo Laham, Eduardo Martini, Roberta Rodrigues, Marcelo Serrado
  • Duração: 105 minutos

Equilíbrio é um conceito difícil de alcançar na maior parte das coisas onde se busca. Seja na transposição de uma ideia original, seja na busca de respostas ao desgaste de um casamento, ou nas diferentes formas de lidar com os conceitos de amor e sexo… e na comédia de caráter popular, encontrar o equilíbrio não é nada simples. As nacionais que o digam, algumas vezes flertando com a vulgaridade sem encontrar um tom de humor ideal, nem encaixar esteticamente seu olhar dentro do audiovisual sem soar televisivo. Por isso é tão saudável que algo como Dois + Dois apareça, contrariando expectativas e jogando pro alto as metas futuras para um longa em sua seara.

Protagonizada por um dos mais populares atores argentinos, Adrian Suar (que é uma espécie de Leandro Hassum deles, com menos talento e muito menos carisma), a versão argentina foi um enorme sucesso por lá, e acabou rendendo essa nossa versão infinitamente superior, em todos os sentidos. De caráter popularesco, exagerado e sem qualquer cuidado (estético ou narrativo), além de muito sem graça, a nossa visão sobre troca de casais é o oposto disso tudo, e o grande nome responsável pela mudança é Marcelo Saback, um dos melhores roteiristas de cinema pop brasileiro hoje em atividade no Brasil. Por quê? Porque não subestima o espectador nem empobrece sua visão para alcançar uma máximo de fatias de mercado.

Dois + Dois
Foto: Divulgação

Talvez por ser ator e autor, com sucesso no teatro e na televisão, o portfólio de Saback seja tão especial, entendendo os tempos de comédia, sendo generoso enquanto roteirista, tenhamos a compreensão porque sua estreia como diretor de cinema seja tão bem sucedida nos pontos chave onde precisaria ser, sem deixar de se compreender tanto como produto quanto como peça de discussão social. Já tendo escrito um dos melhores roteiros de comédia nacional da última década (Loucas para Casar), Saback agora consegue um espaço para ampliar suas capacidades, exercendo sua nova função com igual qualidade.

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Assim como no original, Dois + Dois se permite abordar o desgaste matrimonial e as saídas para tal lugar incômodo, mas aqui a produção não se furta em desenhar muito bem cada um dos protagonistas, seu olhar diante da crise, refinar essa discussão com um invólucro dramático atraente e ainda de fácil acesso, sem jamais perder a interação com o público final. É comédia popular sim, que provoca risos fartos em diálogos impagáveis e gags que ficam na cabeça para além do filme, ainda causando um sorriso largo mesmo após encerramento. Em contrapartida, acompanhamos também as dúvidas e os anseios de Diogo, Emília, Ricardo e Betina, cada um deles com questões sérias a serem respondidas, o que não nos impede de também rir delas.

Dois + Dois
Foto: Divulgação

Competição feminina e masculina, ciúme e inveja corporativos e domésticos, o fim da paixão e as moedas utilizadas para esquentar uma relação, o roteiro de Saback não trata nenhum assunto com leviandade ou timidez, tentando fugir às suas responsabilidades narrativas. Passando longe de uma tradicional discussão de relacionamento, o longa nos coloca para refletir ao mesmo passo que diverte e entretém a valer, com muita competência, sem perder os aspectos visuais do projeto. Um exemplo é a fotografia de Carlos André Zalasik (o nome por trás de 2 Coelhos e Mais Forte que o Mundo), que não chapa seus atores em uma produção anódina – o filme tem camadas de luz que servem não para vestir o filme, mas para intensificar sua dramaticidade, como na cena onde os casais jogam suas verdades na mesa, ou na cena da briga dos sócios, onde Diogo é colocado em primeiro plano e se afasta do resto do grupo, delimitando o ponto de quebra da relação.

Lógico que uma produção tão acertada não podia ter um elenco que não rendesse à altura do material geral, e Marcelo Serrado (de Crô), Carol Castro (de Veneza), Roberta Rodrigues (de L.O.C.A.) e Marcelo Laham (de Fala Sério, Mãe!) estão excelentes, tanto juntos quanto em unitário, defendendo com categoria suas versões da história e indo até os limites com suas oposições e idiossincrasias, que mostram as contradições de todos nós. Especialmente Serrado, ao se afastar da persona ingrata que o exagero de Crodoaldo Valério trouxe para ele, sai do filme renovado e de pazes feitas com o talento que sempre soubemos que ele têm.

Dois + Dois
Foto: Divulgação

Cada um dos lados de observação em Dois + Dois é amarrado pela visão cheia de brilho de Saback para a natureza humana, seus medos e também suas libertações, sem julgamentos descabidos diante do que é sumariamente perceptível quando se tem boa vontade com o semelhante e empatia. Com as curvas que seu roteiro pretende assinalar, o autor alça voo rumo a um lugar onde ser balanceado é a resposta para muitos males românticos, cedendo sempre para que o equilíbrio pretendido não fira o seu parceiro. Exatamente como deveria ser na vida real, só que com um humor inteligente e prazeroso que poucas vezes alcançamos.

Um grande momento
DR

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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