Crítica | Cinema

Veneza

Sinceridade, beleza, despudor e o “quase”

(Veneza, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Miguel Falabella, Hsu Chien Hsin
  • Roteiro: Jorge Accame, Miguel Falabella
  • Elenco: Carmen Maura, Eduardo Moscovis, Marie Paquim, André Mattos, Dira Paes, Georgina Barbarossa, Danielle Winits, Carol Castro, Carolina Virguez, Caio Manhente, Roney Villela, Maria Eduarda de Carvalho
  • Duração: 92 minutos

Miguel Falabella dispensa apresentações. Quarenta anos de uma carreira onde praticamente de tudo já foi feito na arte: direção de tv, de teatro, de cinema, escritor de tv, teatro e cinema, atuação de tv, teatro e cinema, produtor, carnavalesco, já fez drama, já fez comédia, já fez musical, já fez série, minissérie, novela… enfim, o que falta para Falabella? Sonho antigo, essa adaptação da peça de Jorge Accame foi montada pelo diretor em 2003 pela primeira vez, e agora Veneza mostra seu potencial para as telas, que provavelmente já tinha sido percebido em sua outra encarnação. Com a experiência dos 40 anos, o filme exala emoção a todo momento – e essa emoção, assim como tudo no cinema, não é conseguido “por acaso”, sem esforço ou só na base da intuição. 

O filme persegue o onírico desde seu início, essa é a essência da obra, seu ponto de partida e de chegada, e com essa base estabelecida e compreendida pelo espectador, o projeto ganha uma sustentação protetiva em volta de seus problemas, que não são poucos, mas que podem ser subjetivados de acordo com o envolvimento de cada um àquela atmosfera de sonho constante. Como a adentrar um universo particular no qual precisamos pedir licença, a Casa da Gringa está fincada no etéreo sem perder a certeza de suas possibilidades com o real, trazendo para a contemporaneidade uma narrativa que poderia ser encenada em qualquer período, dada sua universalidade temática. 

Veneza

Veneza passeia sem aprofundar-se em materiais sobre a violência contra a mulher, o abuso moral e o assédio sexual, a homofobia, a misoginia, o machismo, temas mais do que pautados no hoje, mas também não foge do atemporal ao sensibilizar sobre as condições da prostituição, o tratamento de extrema sutileza para cada um desses lugares por onde o filme circunda, talvez sutil demais onde precisaríamos ter uma incisão a mais. O lugar onde o autor Falabella é inserido, no entanto, não abdica das responsabilidades que ele sempre puxou pra si ao escolher sobre o que falar, e o filme caminha em lugar cuidadoso o tempo todo. 

O que impressiona no cômputo geral para a produção é a sensação de “quase”. Veneza chega bem perto de estar em ponto alto de suas realizações e intenções, praticamente cena a cena. O trabalho de montagem (assinada por Diana Vasconcelos, experiente montadora por trás de Chico Xavier, Medida Provisória, e muitos outros) especialmente não consegue o resultado esperado – seus cortes ora parecem abruptos, ora tiram ritmo do filme, prejudicando o andamento geral que truncam a sessão pontualmente e tiram o espectador da conexão com o universo tão aconchegante conseguido entre aqueles tipos tão adoráveis. 

Veneza

Enquanto do elenco não podemos falar absolutamente nada, todos estão em plena forma, especialmente Dira Paes na excelência de sempre, o mesmo não podemos falar do relevo dos personagens, que carecem de mais – ou seja, o mesmo “quase. A excelente Maria Eduarda de Carvalho (de Altas Expectativas) sofre disso, assim como Danielle Winits (de Tudo Bem no Natal que Vem) e Eduardo Moscovis (de Berenice Procura), com histórias que parecem resumidas de potencial e abortadas, independente do trabalho de seus intérpretes, todos em plena forma. mas cujas trajetórias de seus personagens carecem de camadas, mais do que o detalhe oferecido aqui. 

No futuro próximo ao assistir, rememorar Veneza deve ter um gosto mais amargo do que o momento exato da saída de sua sessão. À primeira vista, ter a certeza de que o filme chega perto de realizar grande Cinema carrega uma felicidade e um alívio, principalmente quando pensamos no trabalho de Gustavo Hadba na fotografia e de Tulé Peak na direção de arte. Porém no fundo, uma certa frustração toma conta dos sentidos, por percebermos como sua narrativa poderia ser trabalhada de maneira mais espraiada, garantindo complexidade sem perder a leveza e o humor típicos de seu autor. 

Veneza

Falabella consegue emocionar com a delicadeza das costuras entre algumas situações, a grandeza que Carmen Maura impõe a Gringa, o carinho e a sintonia adquirida entre Carol Castro e Caio Manhente, ou uma decisão criativa de realização como o despudor sexual do filme, que trata os corpos de suas personagens com beleza e naturalidade e seus encontros carnais de maneira sincera, e como esses corpos são filmados, de maneira tão livre. Essa liberdade é exalada também por Veneza, um filme que ainda encontra uma forma particular de celebrar a arte circense de forma muito orgânica. Faltou pouco, Veneza, mas os defeitos e as qualidades saltam aos olhos, e acabam por marcar a produção. 

Um grande momento
O voo de Gringa 

Fotos: Mariana Vianna

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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