Crítica | Festival

Medida Provisória

Um Brasil contra os brasileiros

(Medida Provisória, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Lázaro Ramos
  • Roteiro: Aldri Anunciação, Elísio Lopes Jr., Lázaro Ramos, Lusa Silvestre
  • Elenco: Alfred Enoch, Taís Araújo, Seu Jorge, Adriana Esteves, Renata Sorrah, , Mariana Xavier, Emicida, Dona Diva, Aldri Anunciação, Pablo Sanábio, Flavio Bauraqui, Hilton Cobra
  • Duração: 103 minutos

Brasil, em qualquer tempo, em todos os lugares. Medida Provisória, primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Lárazo Ramos, estreia no festival SXSW cheio de potência no momento  em que o país, mais do que nunca, se encontra perdido em meio ao caos e ao obscurantismo. Sob os desmandos de um genocida, vê sua população morrendo em números cada dia maiores e os problemas sociais se multiplicando. Nunca foi fácil ser brasileiro, mas nunca foi tão difícil. Encontrar um filme como este relembra que os números não falam somente sobre a doença e o colapso do sistema de saúde, falam também de um descaso que na verdade esconde a escolha de vítimas. Uma escolha histórica.

Não, o filme não é sobre Covid, não tem nada a ver com isso, é sobre a questão racial. E como ainda é inédito no Brasil, isso é o máximo que falarei sobre ele para que não se estrague qualquer surpresa sobre a trama. Se bem que é difícil que haja spoilers em ficções que tratem de racismo no País. Por mais que o Rio de Janeiro de Medida Provisória seja distópico e não seja fácil definir com precisão qual é a data daqueles eventos, sempre é possível dizer que aquilo que se mostra poderia muito bem estar em um documentário, por mais absurdo e surreal que pareça.

Afinal de contas, vivemos no lugar onde não só as coisas não fazem sentido — vide o circo dos horrores na Câmara em abril de 2016, as eleições de 2018 e o enfrentamento à pandemia em 2020 — como a história é marcada por perseguições e preconceitos disfarçados e arraigados, onde grande parte da população procura identificação e legitimação em uma figura que a permite explicitar toda a sua insatisfação por políticas que ameacem seu sentimento de superioridade e privilégio. Não é apenas uma terra governada por Bolsonaro, é uma terra habitada por pessoas que acreditam e defendem o discurso preconceituoso, excludente e de morte.

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Medida Provisória

Lázaro consegue trazer o sentimento para a tela e conta com uma atuação muito especial de Adriana Esteves para traduzir esse sentimento com sua odiosa Isabel. Renata Sorrah ajuda na construção do retrato dessa sociedade doente. Apesar de uma certa irregularidade nas atuações, o diretor tem um bom controle do elenco, que, junto às atrizes globais, conta também com atores conhecidos do cinema, da televisão e antigos parceiros de cena do ator em Salvador. A mistura dá força ao filme, trazendo uma mescla de sotaques e uma diversidade que transformam aquele Rio de Janeiro no Brasil.

O texto de Medida Provisória, adaptação do próprio Lázaro, Lusa Silvestre e Elísio Lopes Jr. da peça de Aldri Anunciação, é poderoso, principalmente pelas circunstâncias. Mesmo que haja falhas na narrativa (nada que comprometa a experiência ou diminua o impacto, mas também que não passe despercebido), há muita potência no discurso. Impossível ficar imune a tudo aquilo que se vê e se escute, ou não se identificar com o que é dito, ainda que por vezes os diálogos sejam excessivamente explícitos. Porém, hoje já sabemos que o didatismo é necessário, tendo em vista que, se chegamos onde chegamos, deve ser por incapacidade de compreensão ou interpretação. 

O ritmo do filme é tenso como seu discurso e a exposição da realidade. Os planos alternados do começo vão encontrando sentido e aquilo que parecia ser frequência vira pontuação. O diretor tem uma boa mão para a ação e, em sua bem produzida distopia, cria a ruptura e o senso de urgência. Uma das sequências destaca essa qualidade — e a própria questão-chave do filme — com a montagem.

Medida Provisória é mais um retrato desse nosso Brasil. Um Brasil que se diz plural e que, sim, tem muita gente boa, mas que de forma macro e sistêmica é sempre contrário aos próprios brasileiros. Em seu discurso, o filme repete aquilo que precisa ser dito de novo e de novo, palavras e gestos que precisam ecoar e serem vistos porque a hora de mudar já passou. Que o discurso de ódio e as palavras de intolerância não tenham mais espaço, em tempo algum, em lugar nenhum.

Um grande momento
Santiago e André

[SXSW 2021 – Film Festival]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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