Crítica | Streaming

Doutor Sono

(Doctor Sleep, EUA/GBR, 2019)
Gênero
Direção: Mike Flanagan
Elenco: Rebecca Ferguson, Ewan McGregor, Jacob Tremblay, Carel Struycken, Emily Alyn Lind, Henry Thomas, Cliff Curtis, Zahn McClarnon, Chelsea Talmadge, Alex Essoe, Bruce Greenwood, Jocelin Donahue, Carl Lumbly, Kyliegh Curran, Violet McGraw, Catherine Parker, Robert Longstreet, Selena Anduze, Nicholas Pryor
Roteiro: Stephen King (romance), Mike Flanagan
Duração: 151 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Como seria, depois de tanto tempo, o retorno a Overlook, o hotel onde Jack Torrance, consumido pela solidão e pelo isolamento, perdeu o juízo e tentou matar sua família? Dono primeiro da história, Stephen King experimentou este retorno ao criar, em “Doutor Sono“, o futuro de Danny, o menininho iluminado que dava o título ao livro anterior. Embora tenha uma premissa interessante, a leitura arrastada e cansativa decepciona. Ainda assim, graças ao histórico, os direitos foram comprados.

Antes de falar do filme Doutor Sono, vale lembrar que, por existência no cinema, “O Iluminado” tem uma vida um pouco diferente de outras obras. É uma espécie de paternidade compartilhada que interfere não só na obra primeira, aquela diretamente adaptada, como em outras, que nela se baseiam. Por mais que King repudie as liberdades de Stanley Kubrick na feitura do filme, o que se construiu acaba sendo um ponto de referência – e reverência – para todos.

Voltando à adaptação do livro de retorno ao Hotel Overlook, que chega agora aos cinemas brasileiros, Mike Flanagan assume vários riscos quando aceita levar a continuação às telas. Tem um antecessor icônico, adorado mundo afora, mas sabe que aquele mesmo filme desagradara seu criador primeiro. Mesmo que não seja necessário, ele busca encontrar um ponto de equilíbrio entre esses dois pontos.

O diretor que se notabilizou com títulos de terror que incluem os bons O Espelho e Ouija: A Origem do Mal, além da série A Maldição da Residência Hill até que faz um bom trabalho. Ele consegue usar a nostalgia dos amantes do longa de 1980, desde os primeiros segundos, com a logo antiga da Warner e os primeiros acordes da trilha de Rachel Elkind e Wendy Carlos, e respeita a aura criada por King em sua tradicional literatura.

Diferente daquilo que se vivia em O Iluminado, em Doutor Sono, não há confinamento espacial. Personagens se repetem, revividos por novos atores, em diferentes e variados ambientes e há interação entre eles, mas nem sempre esta é física. Não há muita elaboração além da básica disputa entre bem e mal, sendo que este é mais palpável, e por vezes mais explícito do que precisava ser, e aquele seja bem delimitado.

O longa-metragem sofre com alguns problemas que vêm do próprio livro, como a duração excessiva e uma primeira parte que se alonga demais. A narrativa carece de uma conexão real com o público – e, lógico, de um horror efetivo – até que a primeira interação entre os dois iluminados realmente se concretize. Há ainda muitas repetições que visam reforçar pontos que já estão suficientemente destacados.

Porém, o caminho tortuoso é literalmente esquecido quando se chega ao Overlook e se “acorda” o hotel. O voltar ao local é respeitoso com a obra e com aqueles que a admiram. Tudo ali faz sentido e até mesmo as passagens que podem incomodar, por alguma inadequação de elenco ou algo do tipo, têm a sua razão de ser. Não há como não se render à experiência.

Flanagan usa elementos muito básicos na manipulação do horror: não deixa de brincar com as possibilidades de susto e faz todo o seu trajeto usando o universo kubrickiano para causar a ansiedade. Entre a nostalgia e o inesperado, o encontro com o medo vem de maneira muito competente.

Ainda que Doutor Sono funcione sozinho, é uma experiência diferente para iniciados. Então, é bom dar uma olhadinha em O Iluminado antes de assistir.

Um Grande Momento:
Fugindo pro quarto.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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