Crítica | Cinema

Duna

(Dune, EUA, CAN, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ficção Científica
  • Direção: Denis Villeneuve
  • Roteiro: Jon Spaihts, Denis Villeneuve, Eric Roth
  • Elenco: Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Jason Momoa, Stellan Skarsgård, Stephen McKinley Henderson, Josh Brolin, Javier Bardem, Sharon Duncan-Brewster, Chen Chang, Dave Bautista, David Dastmalchian, Zendaya, Charlotte Rampling, Babs Olusanmokun
  • Duração: 155 minutos

A esperada adaptação do clássico romance de Frank Herbert chegou aos cinemas, apesar de todas as dificuldades pandêmicas e de adaptação. O novo filme de Duna, dirigido por Denis Villeneuve arrebata tanto leitores do livro como antigos espectadores da adaptação homônima de David Lynch. A estética do longa se destaca pela sua originalidade e beleza, um universo muito complexo caracterizado por disputas políticas, conhecimentos ancestrais e muitos mistérios. O único desejo que fica depois da sessão é o de querer mais, a vontade de um mergulho mais profundo nessa realidade tão bem traduzida e interpretada.

O livro “Duna” fez muito sucesso desde sua publicação em 1965, considerado uma das maiores referências da literatura de ficção científica, ele junta tramas entre instituições poderosas, teorias e saberes paradoxais que revestem o ambiente com um véu de mistério e magia, o tornando único. Nunca se encarou como fácil a tarefa de adaptar esse universo, isso acontece pela complexidade e até mesmo dificuldade prática de reprodução de alguns fenômenos narrados no romance. É claro que o tempo só ajuda a diminuir essas barreiras pela evolução tecnológica da indústria.

Duna (2021)
Warner Bros. Pictures

O antigo filme de David Lynch que também mirou em adaptar a história não foi tão popular quanto o livro. Isso aconteceu, talvez, pelo foco onírico nas obras desse diretor. O que, na verdade, é muito valioso para o romance, uma vez que essa é uma dimensão central do universo de Arrakis, sempre presente nos personagens e nos ambientes, principalmente ao redor da especiaria melange, objeto da disputa intergalática. Acontece que muitos outros detalhes e enfoques foram deixados de lado, desvalorizando um pouco o potencial da história. No final das contas, a interpretação visual de Lynch foi herança substancial para a consolidação de Duna por Villenueve, principalmente na valorização da dimensão dos sonhos e das subjetividades das personagens.

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Contudo, Denis, diretor de A Chegada e Blade Runner 2049, eleva o patamar da adaptação a outro nível visual e narrativo. Muitos conceitos da ficção científica atualmente populares foram embrionados em “Duna”, a adaptação visual de muitos desses, como o verme de areia ou os ornitópteros, sempre foi alvo de muita especulação e crítica ao formato. O que se vê no novo Duna é a solidez desses conceitos introjetados numa narrativa visual de não desgrudar os olhos, com minúcias e atenção a alguns detalhes deixados de lado na adaptação anterior. É sempre bom lembrar que filmes e livros são muito diferentes e cada pessoa interpreta do seu jeito, assim como é impossível transmitir por imagens e sons a mesma sensação de páginas e palavras.

Duna (2021)
Warner Bros. Pictures

Existe, porém, a “licença poética” de artistas poderem reproduzir obras de acordo com suas vontades e limitações. Nesse sentido, o longa de Villenueve não falha em ser fiel ao conteúdo do livro, apesar de não conseguir abarcá-lo por completo. Nesse processo, a articulação da tradução entre linguagens é delicada e requer muita inteligência para a adaptação, isso acontece no longa e faz o recorte do imenso e complexo universo não faltar em coerência ou coesão. É claro que a expectativa do leitor e do fã é sempre a maior possível, mas isso não faz deixar a desejar, como é o caso da própria caracterização de algumas instituições no longa, tais quais as Benne Gesserit, que na literatura são mais enigmáticas e, por vezes, mais interessantes.

Em contrapartida, a estética põe essa lógica ao avesso, e por estética se entende toda a composição visual e sonora que cria a ambientação necessária para o universo complexo de Duna. O longa, nesse caminho, representa as Bene Gesserit pelo contrário, com roupas e cenas misteriosas, assim como toda a participação delas. Aí florescem as potencialidades da adaptação audiovisual, que incorpora a genial e inovadora trilha sonora, composta por Hans Zimmer (Interstelar, A Origem), com figurinos absurdamente bem trabalhados e iluminações que fazem a fotografia de Greig Fraser (Rogue One, A Hora Mais Escura) se destacar. Também surpreende o elenco, já dotado de grandes nomes como Timothée Chalamet, Javier Bardem e Rebecca Ferguson, mas com participações muito expressivas, principalmente dos antagonistas Barão Harkonnen e seu sobrinho Rabban Harkonnen, interpretados por Stellan Skarsgård e Dave Bautista.

Duna (2021)
Warner Bros. Pictures

A adaptação de “Duna” para os cinemas sempre foi um desafio, Denis Villeneuve propõe com o novo longa uma abordagem mais popular e exitosa da criação de Frank Herbert, desenvolvendo um universo cinematográfico equivalente ao literário. É importante dizer que o filme não conta a história completa do primeiro livro, o enredo do romance só terá conclusão com uma sequência, que está por vir. Muito da sensação de querer mais deriva disso, mas não fica a impressão de incompletude, e sim o oposto, a proposta do universo é tão completa que atrai a atenção dos espectadores para entender um mundo futuro distante, complexo, que serve de palco para dramas e batalhas políticas. Com certeza uma grande obra do diretor e da ficção científica no cinema contemporâneo. Imperdível e inesquecível.

Um grande momento
O verme e a colheitadeira

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Rodrigo Strieder

Quase publicitário, nerd, viciado em ficção científica, jogos e cinema, foi o primeiro participante do projeto Crítico Mirim do Cenas de Cinema. Depois de participar como jurado de festivais, arriscou suas primeiras linhas e segue até hoje escrevendo.
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