Crítica | Streaming

E amanhã… o Mundo Todo

Despropósito político

(Und morgen die ganze Welt, ALE, FRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Julia von Heinz
  • Roteiro: John Quester, Julia von Heinz
  • Elenco: Mala Emde, Noah Saavedra, Tonio Schneider, Andreas Lust, Luisa-Céline Gaffron, Nadine Sauter, Ivy Lissack, Hussein Eliraqui, Victoria Trauttmansdorff, Michael Wittenborn
  • Duração: 111 minutos

Julia von Heinz não é uma cineasta novata, com poucas referências no currículo. Com muitos trabalhos anteriores e vencedora de alguns prémios, a jovem cineasta alemã ano passado competiu no Festival de Veneza com esse novo E Amanhã… o Mundo Todo, estreia da Netflix com conteúdo político, porém voltado para o público apolítico, por se tratar de uma obra quase ingênua e didática, tratando seus temas com tanto cuidado que parece saindo da intenção original e ampliando sua discussão para além do seu viés escolhido para representar, criando uma ranhura entre o que quer dizer e o que acaba eventualmente dizendo.

Ainda assim, Julia trouxe de volta um universo já reconhecido antes em outros filmes, ao mesmo tempo em que adiciona varios tipos de outros clichês a essa mistura que tenta repaginar um tipo de cinema político para as novas gerações, não tentando engajá-las mas descortinando um olhar parcial em relação aos objetos filmados, com uma visão muito direta sobre as questões macro de seu roteiro em parceria com John Quester. Ao se aproximar das peculiaridades de cada aspecto abordado, E Amanhã… O Mundo Todo escolhe não abordar as subjetividades em si, se atendo ao chamado das ações e restringindo a comunicação popular.

E Amanhã... O Mundo Todo

O painel acaba sendo exclusivamente geral, uma visão ampla sobre as novas gerações de esquerdistas ao se deparar com a violência moral que a direita impõe às relações de todas as ordens, explicitamente no que concerne as observações quanto às etnias, religiões e nacionalidade. Porém ao não se debruçar sobre os indivíduos que montam esse mosaico, o filme perde a força também do todo – afinal, o que se passa pela cabeça de cada um daqueles personagens? Terminamos sem ouvir suas vozes, e isso é especialmente grave quando a personagem central não consegue criar um registro moral a respeito de suas próprias escolhas; é uma carcaça vazia de motivação.

De posse do roteiro, a atriz Mala Emde completa essa ausência de elementos da melhor forma possível, contribuindo com um misto de inadequação, destempero, impulsividade e inocência uma personagem que já tinha uma intérprete potente pra encampar sua voz; na verdade, é Mala a responsável pelos principais interesses da produção, porque carrega o fardo de desenvolver as angústias de alguém que nunca compreendemos. Poderia ser uma escolha narrativa essa esfinge, mas a partir do momento em que nada é preenchido, a certeza de sua descaracterização identitária se materializa, e o espectador de E Amanhã… O Mundo Todo passa a acompanhar uma jornada ausente de propósito.

E Amanhã... O Mundo Todo

Se como roteirista Julia preferiu não adentrar na personalidade de sua abordagem, como diretora essa falta de personalidade é sentida no tratamento convencional ao conceber suas imagens, que na verdade não apresentam nada de especial ao produto. O filme, que parecia tecer uma ideia poderosa sobre um gênero em queda no mercado (afinal, Costa-Gavras quase não produziu “herdeiros”), acaba pagando muitos preços ao se ausentar de delinear seu núcleo central, e um deles é o de travestir a esquerda de um movimento e inócuo e despropositado, sem foco e absolutamente despreparado, ao mesmo tempo em que situa a direita como uma aglomeração de compositores de cantigas extremistas.

E Amanhã… o Mundo Todo é um projeto que parece um novelo de lã, onde um erro parece ter sido acompanhado de muitos outros, gerando um produto cujas boas intenções nem passaram perto do produto final. Quase parecendo um material de depreciação democrática (porque quem luta por ela, no filme, não consegue apresentar suas ideias para além do fanatismo), o filme não funciona com o jovem nem com o adulto, porque consegue ao mesmo tempo ser destituído de interesse e também cheio de oportunidades não aproveitadas, como o trisal bissexual que se monta no centro da ação, ou seja, a timidez de Julia conta exclusivamente com o talento de Mala para salvar seu projeto de um desastre ainda mais acintoso.

Um grande momento
Luisa vai ao show

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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