Crítica | Cinema

Music

Água e óleo na panela velha e inadequada

(Music, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Sia
  • Roteiro: Sia, Dallas Clayton
  • Elenco: Maddie Ziegler, Kate Hudson, Mary Kay Place, Leslie Odom Jr., Hector Elizondo, Beto Calvillo
  • Duração: 107 minutos

A discussão entre os limites das artes é sempre muito constante. No audiovisual, então, são muitas as possibilidades de ultrapassar fronteiras e mesclar projetos, mas será que é possível dizer que eles são a mesma coisa? Não são raras as defesas, na crítica, da videoarte como cinema, por exemplo, ou de um universo que se expande cada vez mais: seriados (se é Lynch, automaticamente é cinema para alguns), telenovela e até videogame. O mesmo acontece com os videoclipes e agora com os. Lemonade é cinema? Uns dirão que sim. Terão suas justificativas, todas válidas. Porém, que me perdoem, a construção de uma narrativa com a colagem de clipes é algo muito particular, e tem uma designação própria justamente para se diferenciar da outra arte com a qual insistem identificá-la.

Há um jeito melhor de provar isso, e ele chega agora aos cinemas. Sia, uma boa realizadora de clipes, em Music, quer transformar seu videoalbum em filme, ao tentar usar como alinhavado para sua colagem uma história de narrativa tradicional, algo que ela notoriamente ela não tem a mesma habilidade para realizar. Claramente duas artes distintas, cinema e videoclipe brigam por espaço na tela, em um filme perdido, aborrecido e equivocado. É importante destacar que não é o mesmo que falar de um musical, ou mesmo de inserções pontuais de clipes em narrativas. Muitos são os títulos que o fazem e funcionam. Music assume a forma híbrida do projeto, literalmente, da partida, e não dá conta dela.

Music

A cantora e compositora leva para a obra a sua característica depressiva, embora invista no visual lúdico e em muitas cores. Ela também leva junto com ela aquela que a acompanha desde muito nova: Maddie Ziegler, a menina que, em 2014, conquistou o mundo dançando no clipe de “Chandelier” e hoje,  entre vários clipes, atua em filmes como The Fallout. Outros que se veem perdidos na empreitada são Leslie Odom Jr., recém-indicado ao Oscar e um dos destaques de Hamilton, e a pouco lembrada nos últimos anos Kate Hudson.

Chega a causar uma certa angústia ver como o trio e, em especial os dois, tentam encontrar algum conteúdo sólido no roteiro para amparar seus personagens. O caminhar dos acontecimentos vai se tornando absurdo e o que eles têm de fundamento é tão superficial que aquilo que fazem impressiona. Mas pelo menos são peças tratadas como fundamentais por Sia e seu parceiro de escrita Dallas Clayton, algo que não acontece com George, Felix e Rudy, peças completamente descartáveis do tabuleiro. 

Music

Os equívocos do longa já começam no argumento. Music é uma adolescente autista, com várias dificuldades, que mora sozinha com a avó e, depois que esta morre, precisa ficar com a meia-irmã doidona. Os clipes contam musicalmente a mesma história que vemos narrada de outra maneira, pela perspectiva da menina, em seu mundo de fantasia. O modo como Sia constrói o universo da garota e o contraponto com a realidade é grosseiro e nada funcional, mas nada se compara com a maneira equivocada com que Sia decide retratar a personagem, voltando décadas na abordagem, algo que combina com o formato de seu filme, mas não com a época em que ele é lançado.

É no desajuste que Music se constrói, com um roteiro desestruturado e uma estética rachada em duas, metade saída diretamente do século passado e metade apostando no delírio da cor. De um lado, Sia não parece ter a menor ideia do que está fazendo, repete fórmulas e arrisca numa intuição equivocada. Já do outro, há todo um controle do ambiente, uma noção do combinar melodias e experimentação, do jogo de cores, tempo de cena, coreografia, enquadramentos. São observações e controles muito específicos e complexos. Sia sabe fazer videoclipes, é um fato, mas isso não quer dizer que saiba fazer cinema. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Um grande momento

A abertura

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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