Crítica | Festival

The Fallout

(The Fallout, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Megan Park
  • Roteiro: Megan Park
  • Elenco: Jenna Ortega, Maddie Ziegler, Niles Fitch, Will Ropp, Lumi Pollack, John Ortiz, Julie Bowen, Shailene Woodley, Christine Horn, Austin Zajur, Yindra Zayas
  • Duração: 92 minutos

Os Estados Unidos são um país que não esconde a sua adoração pelas armas de fogo. Parte importante da economia local, com um dos mais conhecidos e poderosos lobbies do mundo, não é difícil ter acesso à mercadoria, seja em lojas físicas ou virtuais, com regras de controle permissivas e ineficazes. O resultado disso pode ser visto nas mãos de crianças e adolescentes, dentro de escolas, disparando contra outras crianças e adolescentes. Segundo levantamento do The Washington Post, em 2019, o país contabilizava 237 ataques com armas de fogo em instituições de ensino desde o massacre de Columbine, quando dois alunos mataram 12 colegas, um professor e cometeram suicídio em seguida. 

A cada novo evento, a campanha por um maior controle na compra e na posse de armas de fogo se intensifica com protestos e propostas de alteração da legislação, mas encontra no lobby da Associação Nacional de Rifles (RNA) sua maior bateria. No cinema, a temática já se fez presente e tem se mostrado especialmente em destaque na última temporada com o curta- metragem em animação indicado ao Oscar Se Algo Acontecer.. Te Amo, o drama selecionado para o Festival de Sundance Mass ou o escolhido pelo júri como melhor filme do SXSW The Fallout. Se os dois primeiros trazem as perspectivas dos pais, tanto daqueles que perderam quanto dos que tiraram a vida, o longa de Megan Park entra no universo daqueles que sobrevivem.

Não há morte que não seja menos chocante, ainda mais levando-se em consideração assassinatos, mas homicídios em escolas vêm carregados de crueldade pela conotação muito clara de interrupção de futuro, já que é tudo ao que o local está associado. A adolescente Vada, vivida por Jenna Ortega, é uma típica adolescente que está ali querendo descobrir o mundo, com os conflitos naturais entre admiração e repúdio, descobrindo seus desejos e estabelecendo a sua própria figura, mas, como todos de sua idade, segura de suas certezas. Porém, o triste evento vem para mudar tudo.

Park imprime na tela toda a tristeza e ansiedade, mas faz isso sem esquecer que está tratando do universo juvenil. The Fallout é permeado por essa juventude. Em cores e com muita luz, ela contrapõe os momentos de sufocamento em que estabelece a angústia de sua protagonista e de sua nova amiga Mia (Maddie Ziegler), fazendo com que a espiral rumo ao fundo de cada uma delas seja ao mesmo tempo costurado por conflitos complexos que precisam dividir o espaço. O contato com o trauma é constante e se mostra presente não apenas nos diretamente envolvidos no evento, mas também em todos os que o circundam, o aprofundamento neste abalo é picotado e gradual.

Enquanto as duas amigas buscam fugir desse sentimento com um cotidiano fictício, onde o ignorar estabelece o lugar seguro, a vida que as rodeia está sempre num outro tempo e a diretora marca isso. É como se o filme estivesse sempre dividido em dois universos e só houvesse conforto naquele que não lembra em nada a realidade. As interferências, seja no melhor amigo na televisão fazendo campanha pela mudança da legislação ou no retorno à escola, chegam como soluços, mas aos poucos vão se reencontrando com a estética que dominou o filme até ali, como demonstrando que a vida vai reencontrando o seu caminho, ainda que ele não seja mais o mesmo.

Como se pode antever pelo nome, The Fallout é sobre esse despencar e sobre a possibilidade de se levantar depois, que Vada, diferente de muitas outras vítimas, teve. Um filme que traz, pela ficção, um debate urgente e uma realidade cruel, onde crianças, impulsionadas pelos hormônios e pela fúria cega pegam armas e resolvem seus problemas atirando e matando outras crianças. Nos últimos cinco anos, foram 499 incidentes com armas de fogo em escolas estadunidenses, com 170 vidas interrompidas, 349 feridos e milhares de pessoas marcadas para todo o sempre.

Um grande momento
E

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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