Crítica | Cinema

Eduardo e Mônica

De volta pra outra casa

(Eduardo e Mônica, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Romance
  • Direção: René Sampaio
  • Roteiro: Jessica Candal, Michele Frantz, Claudia Souto, Matheus Souza
  • Elenco: Jessica Candal, Michele Frantz, Claudia Souto, Matheus Souza
  • Duração: 114 minutos

Não foi apenas uma ou duas vezes que se ouviu na vida “ah, mas o livro era melhor”. A grande questão das adaptações de obras literárias para o cinema é que, antes de qualquer outra coisa, as imagens em tela competem com todo um universo individual criado na cabeça daquele que assiste ao filme. Desde questões físicas a traços de comportamento, clima do ambiente a acesso a sentimentos, aquilo que se mostra já chegou de alguma maneira antes, dificilmente parecida com a que agora se mostra, e se solidificou. É preciso trabalho para encontrar um caminho e funcionar. O desafio é grande, ainda mais se as obras têm um grande alcance popular.

Não exatamente literária, mas ainda no campo das letras, Eduardo e Mônica é mais um exemplo de filme que precisa de ousadia e dedicação para se concretizar na tela e conquistar o público, ultrapassando uma barreira que a imaginação de cada um já construiu. René Sampaio, um amante da Legião Urbana, decidiu encarar o desafio. Não é a primeira vez do diretor, que já levara às telas outra música da banda, Faroeste Caboclo, sobre João de Santo Cristo, o baiano que chegava em Brasília querendo mudar tudo, virava traficante e acabava morto por seu rival. Agora a missão era mais complexa, já que a canção do amor entre a médica e o estudante que se encontram por acaso numa baladinha da Capital é muito mais conhecida.

Eduardo e Mônica
Janine Moraes

Se ambas têm a seu favor a habilidade de Renato Russo em criar histórias e toda sua facilidade imagética, “Faroeste” com seus nove minutos tinha uma capacidade de difusão muito restrita, tocava muito menos nas rádios. Já “Eduardo e Mônica” nunca saiu da programação. A presença desta nas rodinhas de violão também sempre foi mais constante e, claro, tem a temática, afinal de contas, “quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?”. Lançada em 1986, no álbum “Dois” da Legião Urbana, a música foi cantada por muitos na época e continua assim até hoje. Tornando-se atemporal e conhecida até mesmo por aqueles que nunca gostaram da banda, estabeleceu na cabeça de cada um dos ouvintes uma imagem para seus Eduardos e suas Mônicas e para todo o universo onde eles habitam e onde esse amor aconteceu.

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O longa chega com uma outra imagem e esse é o seu desafio, mas é respeitoso. Ao brincar com a literalidade — faz isso muito bem quando fala do primeiro encontro dos dois no Parque da Cidade, por exemplo –, chama o espectador para a sua versão e em momento nenhum invalida aquela que não é a sua. O roteiro, assinado a oito mãos por Jessica Candal, Michele Frantz, Claudia Souto, Matheus Souza tem um tempero meio indie, característico deste último, e além de definir bem as personalidades dos protagonistas, dá corpo à história com novos personagens, transformando o “carinha do cursinho” num melhor amigo e dando à Mônica todo um background. Há algumas escorregadas, principalmente quando tenta contextualizar e se excede, ou exageros em um ou outro personagem, mas nada que invalide a experiência.

Eduardo e Mônica
Mariana Vianna

Há um trabalho com o tempo interessante que leva o filme para meados dos anos 1980, com uma reconstituição de época de primeira, e boas elipses temporais, além da ótima caracterização de Gabriel Leone, que vai amadurecendo no decorrer do longa. Aliás, um dos grandes destaques de Eduardo e Mônica é o jovem ator revelado em Malhação e que hoje acumula títulos em uma filmografia impressionante. Do seu desajeitado adolescente que se perde vendo a cena romântica da novela, o jeito desajeitado como se declara ou começa a cantar, sua atuação impressiona nos grandes gestos e nos detalhes. Ao seu lado, como fiel escudeiro, um ótimo e divertido Victor Lamoglia. Já Alice Braga não tem tantos momentos de destaque.

Em torno de tudo há Brasília. Impossível falar de Eduardo e Mônica e não falar da cidade, um lugar que está intrinsecamente ligado à história do casal. Se Renato Russo encheu seus versos de detalhes, recantos e momentos do Plano Piloto, os brasilienses Sampaio e Souza formaram a dupla certa para transformar isso em cenário. Em tela está tudo o que seria óbvio pela letra da canção, mas tem muito mais, como as casinhas quadradinhas do Setor Militar Urbano, a lateral do Teatro Nacional, o laguinho do Bloco F da 308 Sul. São lugares lindos, que vão impressionar quem é de fora e agradar o coração daqueles que moram na cidade e, de partida, vão ter uma relação ainda mais especial com a música. Aliás, para estes, o diretor deixou ainda outros detalhes, como prefixos de telefones e festas muito familiares.

Por muitas vezes durante o filme, a sensação é de viajar no tempo e viver novamente o momento em que se escuta “Dois” pela primeira vez, mas em outra casa. Assistir a Eduardo e Mônica é um pouco isso, estar em um lugar familiar que não é exatamente como você conhecia. Eles e a história não vão ser iguais, mas tudo vai ser muito parecido, e vai divertir e trazer uma nostalgia gostosa, de um tempo vivido ou imaginado.

Um grande momento
Total Eclipse of the Heart

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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