Crítica | Streaming

Emicida: AmarElo – É Tudo Pra Ontem

(Emicida: AmarElo - É Tudo Pra Ontem, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Fred Ouro Preto
  • Roteiro: Fred Ouro Preto, Emicida
  • Duração: 89 minutos
  • Nota:

A ordem natural das coisas que principia as pequenas alegrias da vida adulta…. E qual a paisagem que alarga a visão de que é tudo pra ontem? As imagens aéreas de São Paulo, a mão cultivando a terra, a soma dos encontros num espaço da elite ocupado pelo povo preto. Absolutamente imersivo e cativante, o documentário-show de Emicida produzido pela Laboratório Fantasma chegou à Netflix e arrebatou.

Tudo
Tudo tudo
Que nois tem é nois

Emicida: AmarElo - É Tudo Pra Ontem

As aulas de história, que se sucedem dimensionando recursos gráficos numa linguagem de documentário científico – sobre a vida selvagem ou na melhor tradução possível na inventividade do cinema brasileiro vide Ilha das Flores -, fisgam a atenção. Tudo é descoberta, que chega suave e esmerada num trabalho de pesquisa e roteiro muito eficaz.

Emicida nos conta a saga da irmã do craque flamenguista Jaime de Almeida, que foi levada por um diretor do time de futebol pra ser empregada doméstica e se revelou. Ela cresceria e viraria uma da maiores intelectuais brasileiras, a antropóloga Lélia Gonzalez. Entrecortando animações, fotos que ganham movimentos suaves e glow, Emicida vai relacionando histórias pessoais de tempos imemoriais de personalidades que forjaram a identidade desse país.

Emicida: AmarElo - É Tudo Pra Ontem

Conta como Lélia se uniu ao sambista Candeia do Partido Alto e juntos fundaram a escola Quilombo, que reverberou em 1978 nas escadarias do teatro Municipal em São Paulo, ano de fundação do Movimento Negro Unificado (MNU). Nesse mesmo teatro, vamos penetrando entre coxias, bastidores. No palco ou plateia, o encanto de gente que nunca tinha lá estado contagia e imprime beleza no filme. Emicida lembra que ali tem esforço de gente preta, que construiu boa parte dos monumentos e prédios de São Paulo como o grande arquiteto escravizado Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas.

Uma hora e meia de séculos de músicas, relatos orais, fatos, memórias. Sabem o verdadeiro pai da Bossa Nova? Nenhum homem branco da zona sul do Rio, mas sim o pianista e cantor negro Johnny Alf. Se constituindo na presença de quem tanto ensinou e pouco reconhecimento teve (botamos na conta do racismo estrutural) como Wilson das Neves – Emicida já declarou na época do lançamento do disco que o mesmo era um presente para o mestre, grande baterista e referência musical -, a sambista Leci Brandão ou a atriz Ruth de Souza AmarElo vai costurando verdades. “Ruth começou lá atrás o que estamos florescendo hoje”, ouvimos e vemos Marielle Franco afirmando.

Emicida: AmarElo - É Tudo Pra Ontem

E é na auto imagem, na afirmação do lugar de fala com uma personalidade referenciando a outra que AmarElo se descola do caminho mais fácil. Não é um documentário panfletário, políticamente agressivo, mas uma intrépida narrativa de libertação.

E ainda assim, há espaço para Fernanda Montenegro nos fazer chorar declamando o poema mais famoso de Alphonsus Guimarães. Para Majur e Pabllo Vitar afirmarem a importância das vidas trans e usarem a música como arma (dito por Fela Kuti) para desarmarem corações junto ao rapper/narrador do filme no final do show-ensaio audiovisual que resgata a cultura preta no Brasil e a correlaciona com a ocupação urbana e artística de São Paulo.

AmarElo tem consciência do que quer alcançar. É como tá no sampleado da música-título que evoca Belchior:

Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro.

Presentemente sendo forte.

O Sol só vem depois. Mas aparentemente ele espraia no horizonte, e das pequenas alegrias momentâneas AmarElo – É tudo pra ontem está aí, pra ser visto e revisto.

Um grande momento
A saga da menina Lélia Gonzalez e Candeia.

Fotos: Jef Delgado

Ver “Emicida: AmarElo – É Tudo pra Ontem” na Netflix

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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