Crítica | Cinema

Espíritos Obscuros

(Antlers, EUA, MEX, CAN, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Scott Cooper
  • Roteiro: Henry Chaisson, Nick Antosca, Scott Cooper
  • Elenco: Keri Russell, Jesse Plemons, Jeremy T. Thomas, Graham Greene, Scott Haze, Rory Cochrane, Amy Madigan, Sawyer Jones
  • Duração: 99 minutos

De nome original Antlers (chifres), o longa Espíritos Obscuros, dirigido por Scott Cooper e produzido por Guillermo del Toro, conta a história de Julia Meadows (Keri Russell), uma atenciosa professora de uma cidade pequena do Oregon, que se une ao seu irmão, Paul Meadows (Jesse Plemons), para tentar desvendar os mistérios que circundam a vida do seu aluno de 12 anos Lucas Weaver (Jeremy T. Thomas), que tem dificuldades para se integrar aos demais alunos e, claramente, carrega vários traumas.

A trama se desenvolve de forma sombria, o que é reforçado pelo incrível cenário obscuro da pacata cidade, e retrata os abusos sofridos tanto por Julia, quanto por seu irmão Paul, e se desenvolve levando o espectador a compreender o que ocorreu na vida do pequeno Lucas, seu pai, Frank Weaver (Scott Haze) e seu irmão, Aiden Weaver (Sawyer Jones).

Ao contrário do que a professora pensa, contudo, o demônio que atormenta a vida de Lucas, vai além da explicação racional, e perpassa o folclore algonquina, dando forma àquilo que nomeia o filme: uma figura demoníaca nativa das florestas, repleta de chifres, devoradora de homens e de fome insaciável: o Wendigo.

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Espíritos Obscuros
© Searchlight Pictures

O paralelo que se traça entre o demônio e os homens abusivos parece ser a busca constante ao longo de Espíritos Obscuros, que repete exaustivamente cenas e diálogos sobre abusos, levando a audiência, mais de uma vez, à conclusão óbvia de que tanto Lucas quanto Julia e Paul foram abusados, em idades similares, e tiveram que lutar sozinhos contra seus próprios demônios, de maneira tal que nunca mais se esquecerão de seus traumas.

Na mesma medida, a similitude entre o abusador e a criatura maligna, Wendigo, é também perceptível quando Warren Stokes (Graham Greene) explica, em uma cena rasa e célere, que esse demônio só pode ser derrotado após ser alimentado, pois é o momento em que ele fica mais fraco, assim como os abusadores que, após consumarem seus terrores psicológicos, sexuais e físicos contra as vítimas, ficam exaustos fisicamente.

Se, contudo, há uma superficialidade para tratar da lenda folclórica ao redor do Wendigo, o excesso de repetições de falas sobre os abusos retrata bem a dificuldade da ruptura da vítima com o abusador, quando este é uma figura importante na vida e no desenvolvimento daquela.

Espíritos Obscuros
© Searchlight Pictures

Enquanto Júlia sofreu muito antes de decidir romper com seus cenários de abusos, ciente que deixaria seu irmão para trás; Lucas, por sua vez, busca ser amado por seu próprio demônio, acreditando que basta alimentá-lo para que ele o ame e não o agrida – o que, mais uma vez, evidencia a análise dos abusos parentais que se desenrola ao longo da trama.

Infelizmente, o excesso de diálogos sobre agressões e de elementos clássicos de filmes de terror, além da superficialidade ao tratar do ser mitológico, acabam deixando Espíritos Obscuros maçante, lento e previsível, de maneira tal que é quase impossível não se perceber quando e como os personagens irão terminar.

É possível perceber a influência de del Toro no cenário obscuro e carregado de névoa, que traz à mente algumas de suas obras, como O Orfanato, ao passo que o Wendigo é retratado com a mesma criatividade daquela presente em A Forma da Água, porém, desumanizando a criatura, e deixando-a muito similar ao demônio maligno Sammael (de Hellboy), com chifres, ao invés de tentáculos, na cabeça e em todo o corpo.

Um grande momento
Lembranças de Júlia ao piano

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Daniela Strieder

Advogada e ioguim, Daniela está sempre com a cabeça nas nuvens, criando e inventando histórias, mas não deixa de ter os pés na terra. Fã de cinema desde pequenina, tem um fraco por trilhas sonoras.
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