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Expresso do Destino

(Yarina Tek Bilet, TUR, 2020)

  • Gênero: Comédia, Romance
  • Direção: Ozan Açiktan
  • Roteiro: Drazen Kuljanin, Faruk Ozerten
  • Elenco: Metin Akdülger, Dilan Çiçek Deniz, Tevfik Kartal, Fatma Filiz Sencan
  • Duração: 90 minutos
  • Nota:

Encontrar o cinema turco é refletir, através de sua narrativa e de seu trabalho imagético, sobre as diferenças entre aquela sociedade ainda com questões arcaicas a serem resolvidas, e mesmo uma possível permissividade da nossa própria cultura. Expresso do Destino em pelo menos dois momentos nos retira do seu prumo roteirizado e leva a uma reflexão social diante de informações dadas de maneira muito frugal, porque para aquela realidade nada disso é muito assustador, mas que batem de maneira minimamente questionadora pra nós. Mas será que não é o Brasil um lugar onde (aparentemente) tudo é permitido?

Lembro de acompanhar através do cinema americano as garrafas cobertas por sacolas de papel ao serem consumidas na rua e achar também isso como cerceador, de alguma forma. Aqui no filme de Ozan Açiktan os protagonistas também são informados que o horário permitido para consumo de bebida alcoólica já se encerrou, mas ainda mais bizarro (pra nós) é ouvir que homens e mulheres não podem viajar juntos na mesma cabine de trem se não forem casados, algo que nem podemos supor de tão fora da nossa realidade. Na cultura turca, como fazer surgir um romance do acaso, como aqui é proposto?

Imaginem se Jesse e Celine não tivessem saído do trem em Antes do Amanhecer. Ali e Leyla precisarão passar 14 horas juntos na mesma cabine de trem indo ambos a casamentos, por coincidência. Mesmo sem querer de parte a parte, nasce durante a viagem uma obrigação de diálogo que os fará perceber pontos em comum em suas naturezas românticas e, sem forçar ou sublinhar ações, o filme envolve os personagens em uma trama particular que os fará refletir sobre seus últimos relacionamentos e o que pretendem fazer ao sair do trem, tendo de enfrentar um futuro determinado pelo passado que precisam superar.

Estrelado por Dilan Çiçek Deniz (Miss Turquia 2014) e Metin Akdülger (uma espécie de Hugh Grant turco, se o mesmo fosse mais bonito e menos “comum”), Expresso do Destino tem protagonistas de carreira jovem, ambos funcionam juntos e são carismáticos, o que influi no envolvimento do público com uma trama que pede torcida. De duração bem curta, o filme não entendia – o que podia acontecer, tendo em vista que o cenário é único e os atores também. Ao invés disso, conseguimos nos acatar de tal forma os personagens que nos pegamos envolvidos com o desfecho dos mesmos, deliciosamente em aberto.

Filme turco Expresso do Destino (2020)

Ainda que umas reviravoltas do roteiro promovam a curiosidade do público, Expresso do Destino não apresenta nada de relevante do ponto de vista cinematográfico ou narrativo. Existe sim uma refrescância na produção por seus elementos naturais: o rosto desconhecido de seus atores, o cenário exíguo que não aprisiona a história (e suas breves e necessárias fugas para o exterior), a trilha sonora pop turca que embala as memórias do casal, e as próprias curiosidades a respeito da cultura na Turquia já citadas, suas demandas e curiosidades refletidas em países tão diferentes e que acabam por apimentar uma narrativa que poderia ser insípida, se empregada em outras realidades.

Seja entretendo ou seja refletindo, essa produção turca é leve e dá um sentido mais profundo ao romantismo hoje. Em um mundo tão líquido em suas construções de relações, talvez seja preciso uma cinematografia tão absorta em seus costumes como a da Turquia para criar um relativo clima de envolvimento que vá além da rapidez que vemos hoje, no real e no virtual, tanto na arte quanto na vida real. O toque entre Ali e Leyla é tão elaborado e demora tanto para acontecer que não nos resta outra alternativa, enquanto espectadores, a não ser torcer para que essas pessoas de dedo tão podre serem felizes, como desejamos para nós mesmos.

Um Grande Momento:
Desabafando para o celular.

Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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