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Descendentes

(Descendants, EUA, 2015)

  • Gênero: Musical
  • Direção: Kenny Ortega
  • Roteiro: Josann McGibbon, Sara Parriott
  • Elenco: Dove Cameron, Cameron Boyce, Booboo Stewart, Sofia Carson, Mitchell Hope, Melanie Paxson, Brenna D'Amico, Sarah Jeffery, Zachary Gibson, Jedidiah Goodacre, Dianne Doan, Dan Payne, Keegan Connor Tracy, Wendy Raquel Robinson, Maz Jobrani, Kathy Najimy, Kristin Chenoweth
  • Duração: 112 minutos
  • Nota:

Mesmo que não seja nenhum primor de sofisticação e empenho, Descendentes provoca uma curiosidade sobre a formação e não perenidade dos contos de tradição oral, como eles se moldam no tempo, se perpetuam nas muitas repetições e dependem do alcance de quem os conta. Focando apenas na construção dessas narrativas, sem nenhum aprofundamento na questão da posição social das crianças e no modo como eram tratadas no passado, ponto fundamental na história dos contos de fadas; a Disney, com todas as suas simplificações e releituras, como o caso aqui, é um prato cheio para quem gosta de mergulhar no tema.

Partindo do começo, os contos de fadas, assim como os contos populares e os contos fantásticos, têm uma particularidade: o modo como se firmam em determinadas gerações. Enquanto orais, eram diversificados na construção de condutas morais: o modo como eram contados dependiam do envolvimento de seu narrador com a própria história e com aqueles que a ouviam. A repetição dessas histórias ao longo do tempo, passando por gerações, fez com que se tornassem “definitivas”. Quando Perrault, Andersen e os Grimm imprimem, cada um à sua maneira e sem a pessoalidade do oral, as fábulas passam a ter uma forma mais cristalizada e menos sujeita a alterações, o que parecia ser definitivo comprova-se transitório.

Dove Cameron, Cameron Boyce, Booboo Stewart e Sofia Carson em Descendentes (2015)

Se a escrita já causou uma espécie de engessamento, imaginem o que faz um filme que, mais do que criar novas morais com suas alterações, ilustra seus personagens. Pois bem, pode-se lamentar e reprovar a facilitação que a Disney trouxe para essas histórias. Pode-se dizer o quanto sua interferência tira da criança a chance de descoberta e interpretação daquilo que lê ou escuta, porém, é inegável que esses contos se legitimam em uma nova forma de perpetuação. O que era ouvido no passado distante e lido algum tempo depois, passa a ser visto (também universalmente e com um poderio de marketing avassalador) e assume sua nova definição.

Para exemplificar, a primeira versão conhecida de Cinderela, sobre a escrava Rhodopis, na Grécia antiga, e sua representação de humilhação e reconhecimento, apesar de manter a mensagem, vai se transformando com o passar do tempo e com as realidades sociais, temporais e regionais que encontra, do Japão aos escritos de Marie de France, novas características e desafios para seus leitores, e elas vão se amalgamando até chegar à versão mais conhecida, de Hans Christian Andersen, esta já suavizada e sem mutilações corporais. Quando a Disney chega e transmuta ainda mais história, com novas alterações, este passa ser o formato “definitivo”  para o mundo.

Dove Cameron, Cameron Boyce, Booboo Stewart e Sofia Carson em Descendentes (2015)

E assim foi com todos os contos que chegaram às telas. Em um movimento mercadológico, mas não menos interessante do ponto de vista do reaproveitamento narrativo, essas histórias foram se reestruturando dentro da própria existência em versões animadas e em live-action, em sequências e spin-offs. Um bom exemplo dessa ressignificação está em A Bela Adormecida. De Basile à versão do estúdio de animação, passando por Perrault e pelos irmãos Grimm, foram inúmeras mudanças. Estabelecida a forma, com uma das vilãs mais notáveis da animação, a própria Disney foi subvertê-la em Malévola, dando ao todo uma nova dimensão. 

É seguindo o mesmo caminho que chega a Descendentes, musical que toma como base as novas gerações dos contos de fadas, aqueles que seriam os herdeiros dos tão conhecidos personagens. No telefilme que se passa depois do “e foram felizes para sempre”, o estúdio resgata a personalidade anteriormente conhecida de Malévola, embora traga um humor antes inexistente, e junta em um mesmo lugar histórias que seguem o antigo padrão que eles mesmo criaram. 

Sofie Carson em Descendentes

Há uma espécie de confederação de reinos onde a Fera está prestes a coroar seu filho príncipe. Os vilões, entre eles Jafar, Rainha Má, Cruella De Vil e Malévola, estão exilados em uma ilha com seus descendentes. O fato de brincar com novas gerações é interessante justamente porque traz, de uma forma divertida, essas mutações cabíveis e a maneira como novas gerações acessam e transformam as histórias. Porém, por mais que seja interessante e traga um material riquíssimo para quem gosta de estudar a evolução dos contos e suas narrativas, a curiosidade está muito mais para quem está do outro lado da tela do que para quem a produz, ou seja, não pode depender do produto em si.

Fora números musicais impressionantes e uma estrutura funcional, falta apego a qualquer aprofundamento dos personagens ou elaboração estética. Feito com o intuito de consumo rápido, embora ganhe muito por se aproveitar da familiaridade dos espectadores com o universo já conhecido – qualquer livro, filme, série, música ou fotografia que trate de contos de fadas tem essa facilidade -, não se preocupa muito em ir além disso. 

Dove Cameron, Cameron Boyce, Booboo Stewart e Sofia Carson em Descendentes (2015)

Com um visual televisivo que deixa evidente o improviso, a artificialidade e a falta de cuidado, sobra a quem assiste a Descendentes a brincadeira de reviver velhas histórias e vê-las mudar de direção. Não que não seja interessante perceber como se dá a relação de Malévola com sua filha Evie (a carismática Sofia Carson), a surpresa com a consciência do filho de Bela ou a torcida pelo filho de Dunga. Mas é um produto que se acovarda ante os caminhos que poderia seguir, bem diferente do que fez o filme com Angelina Jolie. Ao buscar pelo caminho mais seguro, perde muitas oportunidades, inclusive de transmitir mensagens mais adequadas aos dias de hoje, mas nem por isso deixa de criar uma nova narrativa para outras tão conhecidas.

Descendentes reafirma tudo o que se fala do estúdio quanto à facilitação e pasteurização dos contos de fadas, mas, odeie-se isso ou não, traz elementos que serão incorporados e mudarão o que está posto. Porque o definitivo nunca existirá nesse tipo de narrativa. E continua…

Um Grande Momento:

A dança final.

Telecine

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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