Frantz Fanon chega ao cinema carregando uma história difícil de caber em um cinebiografia. Nascido na Martinica, formado em psiquiatria na França e enviado ao hospital de Blida-Joinville, na Argélia, ele entendeu a colonização também como uma ferida psíquica, inscrita nos corpos, nos diagnósticos, nos modos de tratamento e na própria organização dos espaços. No período escolhido pelo diretor Jean-Claude Barny, entre 1953 e 1961, sua prática médica se mistura ao engajamento junto à luta de independência argelina, atravessando a guerra, o racismo francês e a elaboração de um pensamento que faria de “Pele Negra, Máscaras Brancas” e “Os Condenados da Terra” textos fundamentais do anticolonialismo.
Há um peso simbólico que o filme carrega antes mesmo de encontrar sua forma. O cinema francês raramente se debruça com a força necessária sobre a própria história colonial, e Fanon surge dentro dessa ausência, tentando colocar no centro uma figura que a França preferiu manter em zona desconfortável, entre a admiração intelectual e a recusa política.
O problema é que Barny parece consciente demais da importância de seu protagonista e, em muitos momentos, filma a grandeza antes de alcançar o homem. O longa quer dar conta do hospital, da militância, do casamento, do racismo cotidiano, das disputas políticas e das tensões dentro da própria Argélia colonial. Tudo importa, mas nem tudo encontra lugar. E o resultado é uma estrutura de mosaico, feita de blocos que se acumulam sem o equilíbrio narrativo necessário para que uma parte respire dentro da outra.
Há acertos, como quando se atém a momentos no hospital. Ali, a política se concretiza para além das palavras. Fanon observa pacientes tratados como corpos administráveis, tenta alterar a lógica da instituição, desloca a clínica para uma ideia de humanidade que o colonialismo recusava desde a origem. São os momentos em que o filme encontra sua matéria mais viva, porque o pensamento aparece encarnado em práticas, em olhares, em pequenas mudanças de circulação e escuta.
Essa força, porém, se perde quando o filme volta a buscar Fanon como figura exemplar. A descontinuidade pesa porque Barny toca em muitas frentes sem permanecer tempo suficiente em algumas delas. O filme parece avançar por obrigação histórica, como se precisasse garantir a presença de cada capítulo relevante, e esse cuidado rouba a fluidez. A vida de Fanon, que foi feita de choque, deslocamento e pensamento em combustão, aparece muitas vezes organizada por passagens funcionais demais e insuficientes.
As atuações acompanham essa irregularidade. Alexandre Bouyer constrói um Fanon contido, concentrado, quase sempre atravessado pelo peso da lucidez, mas essa contenção às vezes aproxima o personagem de uma figura didática. Ao redor dele, outros registros oscilam. Há personagens que parecem buscar um naturalismo mais seco, enquanto outros entram em uma intensidade mais marcada, e esse desencontro de tons deixa o filme instável.
Ainda assim, Fanon tem o seu valor. Para quem conhece pouco da trajetória do psiquiatra e intelectual, há ali um contato importante com sua história, com a Argélia colonial, com a violência francesa e com uma concepção de cuidado que nasce da recusa em separar saúde mental, política e desumanização.
Fanon não tem o equilíbrio que a história exigia, mas existe em um lugar de onde muitos filmes ainda desviam o olhar. E há algo profundamente necessário em obras que se voltam para a própria culpa na história, mesmo quando elas não são perfeitas.
Um grande momento
Solte eles


