Crítica | Outras metragens

Fever Dream

Febre solitária

(حُمى و حُلمْ, QAT, POL, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Experimental
  • Direção: Ania Hendryx Wójtowicz
  • Roteiro: Ania Hendryx Wójtowicz
  • Elenco: Sebastián Betancur Montoya, Ania Hendryx Wójtowicz, Gloria Amparo Montoya Diez, Nedal Rabhi Hammouda, Marek Wójtowicz
  • Duração: 8 minutos

Em 2020, o mundo inteiro foi surpreendido por uma doença que surgiu na China e espalhou-se assustadoramente rápido. Ninguém sabia o que fazer, como agir. As pessoas morriam sem respirar e a busca pela cura era intensa. FIQUE EM CASA. Neste isolamento, uma nova forma de ver o mundo e olhar para si próprio surgiu. E também, como não poderia deixar de ser, um novo modo de fazer cinema, de sentir o cinema.

Os filmes de isolamento inundaram os festivais, documentários sobre a própria doença, ficções biográficas sobre os reflexos da falta de conexão humana, ou ficções nada biográficas que se aproveitavam das ausências. Foi um tempo até que as coisas fossem se encaixando novamente, que novos modelos de produção fossem surgindo, mas alguns títulos ainda surgem por aí, remanescentes dos primeiros momentos. É o caso de Fever Dream, curta experimental de Ania Hendryx Wójtowicz que integra a seleção deste ano de Tribeca.

Talvez estejamos de volta aos primeiros tempos, ao lockdown extremo, ou não, já que o que se vê coincide com a terceira onda da doença. Porque a Covid ainda tem as suas ondas, os seus momentos de agravamento mesmo depois de tantas doses da vacina e tantos protocolos diferentes ao redor do mundo. Em um quarto de uma clínica que mais parece um hotel, uma mulher espera o momento de voltar à vida, e delira. FIQUE EM CASA. A ordem é repetida pela televisão entre programas aleatórios que ela assiste sem parar.

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Seu corpo reage à solidão e à doença. Ela se sente presa e perdida. A vista da capital do Catar pela janela é o retrato da liberdade perdida que se confunde com as imagens alegres, mas ridiculamente falsas do visor. Em Fever Dream, a realidade vem pelo espremido de um olho mágico, de onde ela acompanha pessoas com roupas isolantes que recolhem as bandejas deixadas na porta e os padrões do papel de parede e do tapete. 

Tudo a mistura vem acompanhada por sons difusos, como em um pesadelo febril infinito, e imagens se repetem aleatoriamente. FIQUE EM CASA. Há outros que ela vê, mas não há ninguém por perto. Há o irreal misturado com o real. Os lençois da cama confirmam o delírio, e há a melhora gradual, com movimentos que deixam de ser apenas vistos para tornarem-se próprios, para levá-la, pelo menos temporalmente, para longe dali. As imagens da janela, podem enfim virar um realidade, pelo menos até a próxima onda.

Um grande momento
Alongamento

[Tribeca Film Festival 2022]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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