Crítica | Streaming

Fogo Sombrio

(Fuego negro, MEX, 2020)

  • Gênero: Terror
  • Direção: Bernardo Arellano
  • Roteiro: Bernardo Arellano
  • Elenco: Tenoch Huerta, Eréndira Ibarra, Dale Carley, Ariane Pellicer, Johana Fragoso Blendl, Daina Soledad Liparoti, Mauricio Aspe, Eglé Ivanauskaité
  • Duração: 81 minutos
  • Nota:

Não é preciso mais do que dois minutos para perceber que Fogo Sombrio é um filme calcado no exagero. A produção mexicana não poupa na criação de aura com muito esfumaçado, vermelho e neon. E não é um trabalho estético ruim, mas incômodo pela vontade de referenciar (e reverenciar) um sem número de outros filmes.

Neo-noir (thriller e sci-fi), surrealismo, giallo, onirismo e outros estilos formam esse caldo aguado pela falta de personalidade. Aqui, Bernardo Arellano parte de uma premissa simples – o irmão bandido que procura a irmã desaparecida – e entrega uma espécie de tentativa de Lynch permeado por Argento, Rodriguez, Tarantino, Scott, Raimi, Kusama, Flanagan e Ryan Murphy. Além de ser extremamente pretencioso, é perdido em si mesmo. 

O pior é que, se mais econômico e preocupado com seu conteúdo, talvez funcionasse. É interessante, ainda que não original, a concentração de boa parte da história em um hotel habitado pela mais estranhas e diversas criaturas e as noites interrompidas por sonhos macabros, mas o desenvolvimento da trama não consegue casar com as imagens que se sucedem, nem com os novos personagens.

Fogo Sombrio

O roteiro, também de Arellano, não consegue bancar a linha que almeja seguir e se entrega a justificativas preguiçosas. O modo como trata desatenciosamente seus personagens também deixa muito a desejar. Enquanto os papéis principais são cheios de problemas estruturais, os secundários parecem estar na trama apenas para compor visual. Muitos surgem e somem do nada e outros estão ali só para servir de escada para o protagonista. 

Para complicar ainda mais, à frente de tudo está Tenoch Huerta, em uma atuação estrangulada e marcada pela canastrice. Algo coerente com tudo que se tem, mas completamente desequilibrado quando relacionado com a composição – mesmo que falha – de Eréndira Ibarra, a Daniela Velásquez de Sense8. Aliás, desequilíbrio é uma constante no filme. As cenas com Huerta e Johana Fragoso Blendl são dolorosas, tanto pelo conteúdo como pela falta completa de conexão.

No fim das contas, Fogo Sombrio é um filme que investe muito na forma – marcada pela tentativa insistente de repetição, não podemos esquecer – e não tem quase nada para dedicar ao conteúdo. Um emaranhado em névoa e neon que caminha, caminha, caminha e nunca alcança a sua própria pretensão.

Um grande momento
O primeiro sonho. 

Ver “Fogo Sombrio” na Netflix

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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