Crítica | Streaming

Ghost Lab

Linha mortal e radical

(Ghost Lab ฉีกกฎทดลองผี, THA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Paween Purijitpanya
  • Roteiro: Vasudhorn Piyaromna, Paween Purijitpanya, Tossaphon Riantong
  • Elenco: Thanapob Leeratanakachorn, Paris Intarakomalyasut, Nuttanicha Dungwattanawanich, Suquan Bulakul, Pearachanee Siralert, Natthawut Jenmana, Chaleeda Gilbert
  • Duração: 117 minutos

A Tailândia não tem tradição de cinematografia de fácil circulação no Brasil, por isso é com felicidade que aplaudimos a iniciativa da Netflix em explorar diferentes países, culturas e narrativas para encabeçar seu line-up. A chegada de Ghost Lab ao streaming hoje não apenas diversifica o cardápio como amplia o leque de possibilidades para um públicos desacostumado a narrativas desconstruídas e repletas de possibilidades. Em determinado momento do filme, o espectador tem a certeza de que qualquer novo elemento pode ser acrescido à mistura, em matéria de gênero e construção imagética, porque a proposta aqui é somar experiências.

Não parece desordenado o trabalho de Paween Purijitpanya, que traduz o espírito de muito do que versa o cinema do seu país, corajoso e diversificado. Na gênese, trata-se de um suspense sobrenatural com seus códigos tradicionais, porém conforme avança o roteiro, novas fragrâncias são adicionadas à mistura geral, agregando cada vez mais estranheza. Mas o tanto de desconforto prévio que o filme pode causar, é o mesmo de esperteza que chega a reboque, criando um universo muito particular e sedutor, ao menos para quem não é versado em títulos locais e seu caldeirão de texturas.

Ghost Lab

Na “amizade” que nasce entre o mundo real e o mundo espiritual, Paween inclui também a comédia, o drama familiar e o terror gráfico (quase incômodo, até) entre os gêneros que se aglutinam ao que parece sua narrativa central, mas seu olhar vai além do que o roteiro propõe (escrito por ele e também por Vasudhorn Piyaromna e Tossaphon Riantong), assegurando ao longa um trabalho de indiscutível requinte na direção. Nenhum dos elementos que ele agrega tem entrada histérica, o que é raro para um filme de gênero, o que demonstra que sua função, apesar de bissexta, é concatenada e consegue criar, a partir dessa salada aparentemente incomunicável, um conceito claro.

O fotógrafo Pithai Smithsuth, que trabalhou na equipe de Destacamento Blood, tem trabalho que se comunica diretamente à direção, de qualidade evidente, na criação de uma luz que se comunica com todos os gêneros experimentados, e também uma unidade particular ao projeto. Uma característica marcante do filme é, independente da aparente balbúrdia geral, seu acabamento nunca deixa a desejar, servindo sempre acerto estético a cada cena, cuja fluência de planos e das cores concebidas por eles, com o equilíbrio entre sombras e luzes marcando a narrativa. Existe um universo que é conhecido pelos personagens, e o outro lado, tomado pelo desconhecido difuso, é tratado como a proteger a visão dos protagonistas – o que não conhecemos, não vemos, e por isso permanece assustador, e talvez a alguns seduza.

Ghost Lab

Ainda que no terço final, Ghost Lab acabe indo pelos terrenos esperados, o que o filme se torna, pacote inteiro entregue, segue surpreendente. Ao desenhar as personalidades de seus protagonistas tão diferentes (um introspectivo e melancólico, o outro seu exato oposto), o filme acaba introduzindo um caráter humano intrínseco ao sobrenatural, e acaba sendo natural que o filme abrace o metafísico para falar do que nos é essencial – a vida, as descobertas, a dor do luto que desencadeia escolhas erradas, e o eterno vazio que uma partida repentina deixa. Por trás de tudo que é prático, reside o que é emocional e que nos constitui.

Sobreviver à montanha russa de gêneros organizada por Paween Purijitpanya nos faz refletir sobre o quanto seu experimento particular deu certo, ou não. Existe uma real intenção de nos fazer acessar todas as emoções com Ghost Lab: o susto, a gargalhada, o medo, o nojo, a raiva, a tristeza, a ternura, essa é a ambição do filme, passear pela maior quantidade de gêneros possíveis e sair ileso, intacto enquanto material cinematográfico com unidade entre todos os botões apertados. Fica essa mesma estranheza, de ter visto a coragem de apostar tão alto com muitas chances de errar, e conseguir completar o percurso com uma quantidade mínima de arranhões.

Um grande momento
Uma arma que troca de mãos

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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