Crítica | Cinema

Cruella

Velhos nomes, novas tendências

(Cruella, EUA, GBR, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Craig Gillespie
  • Roteiro: Tony McNamara, Dana Fox, Aline Brosh McKenna, Kelly Marcel, Steve Zissis
  • Elenco: Emma Stone, Emma Thompson, Joel Fry, Paul Walter Hauser, John McCrea, Emily Beecham, Mark Strong, Kayvan Novak, Kirby Howell-Baptiste, Jamie Demetriou
  • Duração: 134 minutos

Em seu projeto de resgate das animações do passado, a Disney se viu com uma polêmica: como lidar com questões que se tornaram absolutamente impossíveis para os dias de hoje? Com as animações dos anos 1990, o trabalho já foi complexo, mas foi possível alguma atualização dentro do próprio universo. Com os clássicos mais antigos a coisa era ainda mais problemática e foi necessário estabelecer um outro caminho: inverter a lógica da história por completo, investindo na transformação de seu elemento de maior impacto: o vilão. Eis que temos chegando agora nos cinemas Cruella DeVill, a mulher que queria matar quase uma centena de filhotinhos de dálmatas para fazer um casaco de pele. Imagina se isso teria alguma viabilidade nos dias de hoje.

Boa repetidora de fórmulas que é, a Disney não foi atrás de nenhum modelo novo. Pelo contrário, foi buscar no próprio quintal aquilo que precisava. Em 2014, havia tido a sua primeira experiência com os filmes de origem de vilãs, filmes que ressignificavam não só a própria maldade, mas a relação entre os personagens e as péssimas determinações anteriores. Malévola e Cruella têm basicamente a mesma estrutura narrativa, embora este crie e destaque as diferenças de personalidades entre ambas. Contraposição importantes para que, aqui, a trama tenha um antagonista com mais peso e potência do que o rei do filme de Robert Stromberg.

Cruella

História urbana, mesmo que sem fadas e distante do universo fantástico, Cruella é muito dedicada ao visual e não demora nada para que o selo Disney de qualidade se apresente. O apuro chega com cara de compensação, já que 101 Dálmatas é uma animação que nunca foi totalmente amada pelo dono dos estúdios por ser a primeira das “vacas magras”, depois do fracasso de Bela Adormecida nas bilheterias. Primeira a usar a fotocópia na animação, ainda que tivesse uma das mais icônicas vilãs e uma história envolvente, contrastava com os títulos anteriores e desapontava no quesito. O filme explode em cores e luzes e não economiza nos elementos de cena. Pelo contrário, às vezes a vontade de mostrar é tanta que não se consegue ver tudo.

Os eventos se passam, obviamente, antes dos da animação — e do filme de Glenn Close (que é uma das produtoras executivas do longa). Estella menina, vivida por Tipper Seifert-Cleveland, tem uma mente criativa e reage a um mundo que obviamente não está preparado para aceitar suas transgressões. Espevitada e criativa, quer quebrar regras e padrões, o que é demais para a tradicional escola da cidadezinha onde se esconde. Eventos a levam a Londres, as habilidades a levam a outras experiências e uma incrível Emma Stone entra em cena. O roteiro faz um trabalho muito interessante de captura de essência desta personagem, trazendo o destrambelho e o humor da vilã dos anos 1960, a dubiedade de sentimentos que vem com o desenvolvimento e a força da presença de uma mulher que ocupa espaços, pelo bem ou pelo mal.

Cruella

O mosaico em forma de gente se contrapõe a personagens não tão elaborados quanto ela, mas igualmente cativantes, principalmente a Baronesa, vivida por Emma Thompson. Essa carpintaria se deve, provavelmente, à junção de pessoas com experiências muito diversas: dos adolescente negligenciados à disputa pelo poder de Tony McNamara; os romances irreais e a gozação com esses romances de Dana Fox; as adaptações, inclusive a mais famosa, no universo fashionista, de Aline Brosh McKenna, e o filme de vender boneco de Kelly Marcel são bagagens improváveis que dão ao longa um tecido único.

Também por isso, limitar Cruella a uma comparação com Coringa e O Diabo Veste Prada é raso e injusto com a personagem e com o filme. Não que os títulos não estejam ali. Estão, mas como troça, justamente como aquela pegadinha: “aqui vocês acham que verão isso, certo?” e, sim, o diretor Craig Gillespie coloca Thompson e Stone encenando o jogo que antes vimos entre Meryl Streep e Anne Hathaway ou, em outro momento, pontua musicalmente o ocaso de sua protagonista com a canção que marcou o personagem de Joaquin Phoenix. Porém, não é lógico que se ignore que a diagnosticada deterioração psicológica deste, saída de um mix de Alan Moore e Paul Schrader, em nada lembra o deboche e a vitalidade de Cruella. Pontos e similaridades não definem caminhos, coincidências não definem personalidades.

Do mesmo jeito, estamos cansados de saber que o filme de David Frankel é baseado no livro de Lauren Weisberger que romantiza uma experiência da própria autora, ou seja, é inspirado numa rotina real, de uma revista real, comandada por alguém que o mundo da moda conhece bem. Muito além de O Diabo Veste Prada, é justamente o universo fashionista a maior referência do filme, por ser neste lugar que encontra o espaço para falar de si mesmo.

Cruella brinca com a renovação, a transformação, a dispensa do velho e carcomido, numa autorreferência muito divertida. A Baronesa, com sua postura e seu desfilar pelo corredor da maison, busca peças inesquecíveis para o desfile da próxima estação sem saber que vai ter que lidar com uma versão exclusiva de Vivienne Westwood e Alexander McQueen. Não tem mais lugar para quem sai por aí achando que pode se apropriar da cultura alheia, jogar lixo pela janela do carro, tratar os empregados como lixo e achar que as pessoas podem matar cachorros para fazer roupa. Assim como as pessoas, alguns filmes ficaram lá pra trás, outros virão para tomar o lugar.

Um grande momento
Chegada no baile branco e preto

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo