(Joker, CAN/EUA, 2019)
Drama
Direção: Todd Phillips
Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen, Shea Whigham, Bill Camp, Glenn Fleshler, Leigh Gill, Josh Pais, Rocco Luna, Marc Maron, Sondra James, Murphy Guyer, Douglas Hodge, Dante Pereira-Olson, Carrie Louise Putrello, Sharon Washington
Roteiro: Todd Phillips, Scott Silver
Duração: 121 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Convulsão social. Nesta realidade se desenvolve o longa-metragem Coringa, que traz o personagem de volta às telas resgatando a personalidade dos quadrinhos mais sombrios. Se o conteúdo, na persona do protagonista, lembra Alan Moore e “A Piada Mortal“; a Gotham, em atmosfera, volta-se mais uma vez para Frank Miller e “O Cavaleiro das Trevas”. A violência domina as ruas, o governo se ausenta cada vez mais de sua responsabilidade e há lixo por todo lado. Arthur Fleck é mais um dos abandonados pelo sistema.

Focado no presente do personagem, o filme vai buscar a origem de sua degeneração psicossocial e o surgimento daquele que se tornaria um dos maiores rivais de Batman. Vivendo sozinho com a mãe doente em um apartamento decadente, a saúde mental do comediante frustrado que trabalha como palhaço vai deteriorando em uma espiral sufocante onde eventos influenciam o movimento descendente.

Todd Phillips se desvencilha de sua filmografia, que conta com a franquia Se Beber, Não Case!, Starsky & Hutch: Justiça em Dobro, Cães de Guerra e outros, e se entrega à construção imagética da depressão e da doença mental. Nos primeiros momentos acerta em cheio, com uma câmera temerosa, em desfoque e posterior ao personagem, que demora um tempo para se revelar. Há cores, mas tudo é pesado, feio e claustrofóbico.

O casamento entre a imagem construída e o sentimento que ela desperta faz bem ao filme. O Coringa de agora, diferente – em partes – daqueles que o antecederam no cinema, está entre definições físicas, como a risada involuntária ou a magreza extrema, e idealizações concretizadas. A realização das alucinações, com o transportar da presença a outros lugares ou o criar de acontecimentos, com a mudança de cor e clima, por exemplo, é bastante inspirada.

São muitos planos efetivos nessa busca pelo desacerto e inadequação, e pela exteriorização do personagem, mas a vontade de mostrar a própria capacidade às vezes chama mais atenção do que a história, assim como a inabilidade com a trilha sonora, que por uso excessivo, contraria o objetivo opressor.

Os tropeços, porém, são facilmente esquecidos com a atuação de Joaquin Phoenix, impressionante em cada uma das cenas. É ele quem, sem dúvida nenhuma, mantém o magnetismo do filme, seja com sua postura estranha quando dança ou tenta afrouxar os cadarços do sapato de palhaço, o olhar de vergonha quando tem seus surtos nervosos ou quando assume a loucura e vai se transformando em uma outra pessoa, alguém que já conhecemos e vive no futuro daquele lugar.

Numa realização tão centrada, sobra pouco espaço para os personagens que circundam o protagonista, mas alguns conseguem aproveitá-lo bem, como é o caso de Hannah Gross como a jovem Penny, em uma pequena ponta, ou de Zazie Beetz como a vizinha Sophie e Robert De Niro como Murray Franklin, o comediante bem sucedido, dono do talk show mais famoso de Gotham. Aqui, em uma referência que vai divertir os cinéfilos.

O roteiro de Coringa é interessante e busca alcançar lugares que nem sempre os filmes de heróis conseguem. Embora seja um filme depressivo e humanizado demais, como costumam ser os da DC Comics, há toda uma trama política a ser descoberta. A intenção incerta faz com que não se saiba para que caminho aquilo tudo levará: há o fracasso do sistema, a descrença da sociedade, a criação de um mito e a explosão de uma revolução. É possível que, entre tiros e incêndios, a turba ensandecida resolva que seu ídolo maior é um palhaço louco assassino? Não é preciso olhar muito longe para reconhecer de onde vem a inspiração.

A degeneração de Art alcança muitos outros lugares. Assim como ele é uma peça sem nome em um sistema que não se preocupa com os seus, serve como exemplo de uma esperança insana de futuro. Mas é isso, algum dia será preciso parar, olhar para trás, e entender como o discurso de ódio, “apolítico” e populista ganhou mais uma vez tanta força pelo mundo.

Um Grande Momento:
O primeiro contato com o Coringa.

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