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A Vida Invisível

(A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, BRA, 2019)
Drama
Direção: Karim Aïnouz
Elenco: Carol Duarte, Julia Stockler, Fernanda Montenegro, Gregório Duvivier, Marcio Vito, Flavio Bauraqui, Maria Manoella, Flávia Gusmão, Bárbara Santos, António Fonseca, Cristina Pereira, Nikolas Antunes, Gillray Coutinho
Roteiro: Martha Batalha (livro), Murilo Hauser, Inés Bortagaray, Karim Aïnouz
Duração: 138 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

Vem, vai chover!

A frase de A Vida Invisível, filme inspirado no romance de Martha Batalha dirigido por Karim Aïnouz, traduz o que é ser mulher numa sociedade como a nossa, a vida em busca de abrigo para todas as diminuições e constrangimentos impostos pelo gênero. A relação entre duas irmãs, que sobrevive à ausência, dá força para seguir existindo no crescente de apagamento imposto.

O diretor é um dos corroteiristas do filme, ao lado de Murilo Hauser e Inés Bortagaray, e constrói uma realidade que, mesmo que tenha uma época muito bem determinada, os anos 50, ecoa nos dias de hoje, em ações, comentários, posturas e tradições que ainda persistem. Este continuar existindo das mulheres de qualquer geração é um movimento diário de reafirmação e autoafirmação, de manutenção da identidade, dos próprios sonhos, do não desistir. Como se todos os dias fosse preciso fazer algo para não se tornar invisível.

A história das duas irmãs Eurídice e Guida é apresentada em cores fortes e contrastes, numa mescla de metáforas e literalidades. O perder-se e o não desistir da busca é realçado pela intimidade, as risadas escondidas, as memórias constantes e uma relação que se estabelece à distância, sem qualquer retorno. Apostando na força da narrativa epistolar, duas tramas que se desenvolvem independentemente, de maneira paralela, se conectam num jogo de linguagem interessante.

Essa coexistência de duas realidades está também na forma como Aïnouz desenvolve suas histórias, contrapondo a aura rodrigueana ao melodrama. De forma gradual, o filme vai se transmutando de um estilo ao outro, mas sem que eles deixem de marcar suas características em todos os momentos. Mesmo quando um se sobrepõe ao outro, elementos de ambos coexistem.

Além de tema e forma adequados e envolventes, há uma atenção muito grande ao desenvolvimento dos personagens. Em mais uma referência a Nelson, se os homens são quase todos canalhas, as mulheres têm nuances e são fortes e marcantes. Guida e Eurídice são imensas no crescente de suas jornadas, em caminhos inversos e com ambas querendo se afirmar na suposta realização da outra. Coadjuvantes, Zélia e Filomena estão em pólos opostos, mas cada uma delas tem a sua personalidade e determinação destacada.

Muito desta realização está no trabalho das atrizes. As atuações de Carol Duarte e Julia Stockler são atentas e valorizam os detalhes, chamando a atenção tanto nos olhares e pequenos gestos quanto nos momentos de explosão. É muito curioso, por exemplo, como a principal diferença física entre elas se inverte ao longo da trama. Para completar, Fernanda Montenegro assume o papel de Eurídice na velhice, incorporando trejeitos e dando ainda mais peso à história que se quer contar.

Além disso, é impossível falar do longa e não destacar todo o trabalho de produção. Da fotografia de Hélène Louvart e seus quadros finitos à trilha emotiva de Benedikt Schiefer, passando pela precisão da direção de arte de Rodrigo Martirena e dos figurinos de Marina Franco, todo o trabalho é minucioso para criar um universo que torna possível uma história de presenças e ausências, desejos e frustrações, determinação e apagamento, passado e presente.

Quem se entrega à experiência atravessa um caminho esteticamente elaborado, e, junto com as personagens, diverte-se e angustia-se. Porém, nem só pela história em si, é melancólico chegar ao final A Vida Invisível, pois, por mais que o tempo tenha passado, a resiliência representada ainda hoje precisa ser uma realidade. Vem, nunca parou de chover!

Um Grande Momento:
Abrindo o cofre.

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[13ª CineBH]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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