Crítica | Festival

Os Dias sem Tereza

(Os Dias sem Tereza, BRA, 2018)
Suspense
Direção: Thiago Taves Sobreiro
Elenco: Malu Ramos, Dellani Lima, Giulia Puntel, Shima, C.L. Salvaro
Roteiro: Thiago Taves Sobreiro
Duração: 98 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Se há algo interessante no cinema é a pluralidade de formas para se contar uma mesma história. Mais do que isso, a possibilidade de dar a quem assiste ao filme a chance de criar sua própria história ao encontrar, nos elementos dados, referências e experiências que são sempre subjetivas.

Os Dias sem Tereza, de Thiago Taves Sobreiro, é um filme de gênero que parece ser fácil na trama que apresenta: a namorada mata Teresa e o pai leva a menina a um sítio isolado para uma suposta vingança. A obviedade, porém, não se concretiza, nem nas ações do pai e muito menos na mensagem que pretende passar. É na metáfora nem tão evidente, sempre tão bem-vinda em filmes de suspense e terror psicológico, que está o que mais interessa no longa.

Os símbolos espalhados por todo o filme, com destaque para o sangue, permitem a criação de uma ausência que nada tem a ver com aquilo que prontamente se assume. A dificuldade de relacionamento de um pai com sua filha que se torna mulher e se afasta dele é personificada aqui em terceiras pessoas que cumprem funções na ruptura: a namorada como o amadurecimento, e o amigo do pai como a possibilidade de comunicação.

Taves Sobreiro tem uma boa noção de construção de clima e o faz de maneira original. Embora se utilize da trilha sonora algumas vezes óbvia, ele provoca o suspense ao brincar com o tempo, dilatando cenas e imprimindo sensações na duração dos planos. Há uma cena muito interessante, onde pai e menina caminham sozinhos no escuro procurando algo, em um trajeto longo que é todo calcado na desconfiança dela.

As personalidades e sua relação em cena também usam da imagem para se concretizar. O foco se aproxima da menina, numa tentativa de melhor observá-la, enquanto o pai é retratado à distância, em planos bem abertos. A câmera também varia com as emoções, ora ativa e nervosa, ora passiva, estática. Toda a construção apresenta uma percepção de força imagética apurada e positiva, mas a profusão e alguns estranhamentos demonstram uma ainda existente imaturidade.

Isso é perceptível também na construção de algumas cenas, como a do entregador de pizza ou a da sinuca, que, menos ousadas, estão bem deslocadas dentro do próprio filme. O estranhamento faz com que se destaquem a fragilidade da decupagem e a pouca relevância dos diálogos. Porém, são deslizes menores diante da coragem da obra e da força metafórica que apresenta.

Os Dias sem Tereza pode até ter sido pensado para ser literal, mas sua projeção revela um estudo interessante sobre a dificuldade de relações, o distanciamento geracional, o amadurecimento e a ruptura para a construção de uma personalidade própria. A menina que fugia da festa de aniversário para subir na árvore, aquela que enterrou sua memorabilia, já está em outro lugar, num outro momento e é outra pessoa, aquela que a matou.

Tudo é aberto e encontra em cada espectador o seu significado. Esta é uma das visões, mas muitas outras são possíveis. Como diz o personagem de Shima, basta olhar para ver. Quem fica olhando, encontra alguma coisa. E só o existir dessa possibilidade já é muito positivo para um primeiro longa-metragem.

Um Grande Momento:
Piscina.

Links

IMDb
https://vimeo.com/253550923

[13ª CineBH]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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