Crítica | Catálogo

A Noite Amarela

(A Noite Amarela, BRA, 2019)
Horror
Direção: Ramon Porto Mota
Elenco: Marina Alencar, Servílio de Holanda, Felipe Espindola, Ana Rita Gurgel, Matheus Martins, Clara Pinheiro de Oliveira, Caio Richards, Rana Sui, Fernando Teixeira, Cristian Verardi
Roteiro: Ramon Porto Mota, Jhésus Tribuzi
Duração: 100 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Alfred Hitchcock acreditava que o filme de suspense sempre seria mais interessante que o terror. Este morreria logo, enquanto o thriller bem realizado viveria, floresceria. Segundo ele, o suspense é mais divertido que terror, na verdade, porque “é uma experiência contínua e vai crescendo até atingir um clímax; já o terror, para ser realmente efetivo, tem que vir todo de uma vez, como um relâmpago, e, conseqüentemente, é mais difícil de saborear”. Não é bem assim.

O Brasil vive um momento de experimentação no cinema fantástico. Fórmulas e modelos são repetidos, novas histórias e novas metáforas são criadas, e assim chega-se a uma safra diversificada e bastante curiosa. Alguns filmes, porém, transgridem tudo aquilo que já se conhece por aqui, buscando o improvável como um ponto de provocação de sensações. É o caso de A Noite Amarela, de Ramon Porto Mota.

Contraintuitivo, o longa paraibano é afeito às possibilidades quânticas e vai se construindo na própria desconstrução. Assume o tempo como dimensão, o que possibilita toda uma concretização imagética de teorias como a das fendas, buracos de minhocas, saltos temporais, partículas gêmeas ou partículas fantasmas. A relação é explicitada no filme por uma fita de VHS encontrada, único momento de distanciamento que funciona como explicação – nem sempre bem-vinda – e respiro.

Do outro lado está algo bem comum e intuitivo, a história de um grupo de amigos que acaba de concluir o terceiro ano e viaja para continuar as comemorações e se despedir. Porto Mota é bem persistente na busca do realismo, mas não deixa de bombardeá-lo com alegorias de gênero e esse escape ainda mais complexo que remete ao metafísico.

Elementos clássicos também estão no filme, em objetos cênicos como a estátua carcomida pela maresia ou os quebra-cabeças; no filtro da lente que ilumina e colore; na escuridão que toma conta da tela, e aqui cabe destacar toda a sequência do farol; na trilha sonora bem pontuada de Vito Quintans, e num trabalho impressionante de desenho de som, do sempre ótimo Léo Bortolin.

O roteiro de A Noite Amarela, escrito pelo próprio diretor em parceria com Jhésus Tribuzi, busca o estranhamento e o medo e, como qualquer filme do gênero, não está preocupado no desenvolvimento de todos os seus personagens, embora se dedique a alguns. Além disso, é um filme que deixa tudo muito aberto ao espectador, é este quem vai construir as conexões e tentar entender o que vê. E o caminho não vai ser facilitado. Em uma cena ele entende tudo aquilo que acompanha, seja por identificação ou nostalgia; na próxima não tem qualquer noção do onde pode chegar. No transitar entre o cotidiano e o filosófico-científico, tem momentos inspirados, como a conversa sobre o espírito velho, a primeira “viagem” de Karina, toda a sequência do posto ou a cena com conversas passadas.

E Porto Mota sabe o que quer impresso na tela. Dá asas à imaginação na montagem, com duplicações, soluços, partições e a alternância entre vídeo e fotografias. Junto com Flora Dias, sua fotógrafa, usa a pouca luz para criar quadros ainda mais provocadores e ansiosos e realiza imagens que seriam difíceis de traduzir, num grande mosaico experimental. Sendo, ao mesmo tempo, um filme juvenil de rito de passagem e um terror quântico, que mistura Hugh Everett e H. P. Lovecraft.

Ousado e interessado nas sensações que causa com suas construções, A Noite Amarela foi uma das grandes surpresas deste ano no cinema fantástico brasileiro. Ao provocar insegurança e estranhamento com um casamento coerente de imagem e som, mostra que o terror pode, sim, ser construído lentamente e gerar uma tensão que dura mais tempo do que a própria projeção.

Um Grande Momento:
Conversas passadas.

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[13ª CineBH]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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