Crítica | Festival

Filhos de Macunaima

(Filhos de Macunaima, BRA, 2019)
Documentário
Direção: Miguel Antunes Ramos
Roteiro: Guilherme Giufrida, Miguel Antunes Ramos
Duração: 90 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆

Macunaíma ficou famoso pelas linhas de Mário de Andrade, mas antes de o escritor modernista escrever sua história, os povos pemons, indígenas das etnias macuxi, taurepang, arekuna e kamarakoto que habitam Venezuela, Guiana e Roraima, já exaltavam Macunaima (assim, sem acento). Dentre seus feitos, o demiurgo, ou trickster para alguns, é mais conhecido pela criação da flora no mundo, ao cortar uma árvore imensa que produzia todos os tipos de frutas, aquela cujo o resto de tronco tornou-se o Monte Roraima.

A história de Macunaima foi transcrita pela primeira vez em 1917, em livro de Koch-Grünberg, onde recebia o nome de Makunaima e quando conversões textuais ainda desconsideravam a forma original oral de uma narrativa. Com o passar do tempo e a invasão cada vez maior dos brancos, muitas dessas histórias foram se transformando ainda mais. Hoje, o herói indígena é visto por sua comunidade de maneira diferente, já que esta assumiu valores da cultura de seus respectivos países, tendo, inclusive, a maioria da população evangélica. Embora ainda mantenham seus mitos, eles não podem mais representar os papéis de antes por uma contrariedade com os dogmas cristãos.

É na transformação, na quebra de tradições e tentativas de manutenção, que o documentário Filhos de Macunaima, de Miguel Antunes Ramos, se baseia. O diretor estabelece três focos de atenção: Maria e Daniel, mãe e filho, ela salgadeira, ele dançarino; Teuza, empregada doméstica na Guiana, e Arlen, policial. Entre as várias lembranças de sua origem, “você não é branco, é índio” e tentativas de preservação, como a apresentação da dança tradicional, cada uma dessas pessoas tenta se encontrar em um novo universo. É uma abordagem interessante, mas que poderia ser melhor trabalhada.

O filme começa na Aldeia Tabalascada, com a etnia macuxi, conhecida por ser o maior grupo indígena na Raposa Serra do Sol. Enquanto observa crianças, um pequeno encara a câmera. A cena é inspirada e traz à mente a relação documental, possibilitando interpretações diversas, como a de que o futuro observa o registro de um presente. O jogo porém é quebrado pela falta de persistência no formato do próprio documentário. O viés observacional não orna com os vários cortes e a sensação piora depois que se tenta retratar a relação entre Maria e Daniel, já em Boa Vista. O que se vê ali é algo que está entre a encenação e o desconforto com a presença da câmera e isso enfraquece a primeira das narrativas.

Porém, há ainda pequenas pérolas descobertas que conversam com o ponto-chave de Filhos de Macunaima: os vários diálogos em macuxi, Datena na televisão, o vídeo gravado pelo celular. “Vou contar a história em português para todo mundo entender”, diz um senhor antes de começar sua história a um grupo de pessoas que ensaia uma dança tradicional e se enfeita usando batom no lugar do urucum.

São detalhes que chamam mais atenção do que, por exemplo, a quebra forçada para o ensaio de street dance na igreja. É como se cada um dos espaços narrativos contasse com suas pequenas descobertas, mas não conseguisse se integrar ao todo de maneira orgânica. Além disso, o filme transparece um certo julgamento por trás da câmera. Se aqui está no enquadramento que destaca o local do ensaio, fica ainda mais evidente no próximo retrato.

Teuza é uma mulher que viaja para a Guiana para cuidar dos filhos de outra pessoa, manda dinheiro para casa e, quando retorna, precisa tratar de vários problemas de seus próprios filhos, algo muito conhecido por aqui e que não precisa de maiores explicações. O juízo de valor é até mais discreto nessa relação, embora esteja lá, mas é escancarado no baile. Será que aquela era a melhor cena para demonstrar uma noite de diversão, quando se sabe que o tempo junto à documentada naquele lugar foi muito maior do que isso? E o que acrescenta essa exposição diante da história se não for na condução de um possível julgamento?

Menos pessoal que as outras duas histórias, o filme segue com Arlen. Entre traquitanas e uma certa paranoia, se perde um pouco na tentativa de expor a parte da vigilância comunitária ou a relação com a polícia quando se está integrado a seus quadros. O mote principal é a dominação e ocupação de terras com o Minha Casa, Minha Vida. É curioso ver como se estabelece a relação daquelas pessoas com as novas moradias, indo do receber as chaves das mãos de Dilma à individualização de fachadas, com muros, grades, cercas elétricas e câmeras de segurança. Outro ponto alto é a reunião, onde o tuxauá informa sobre a instalação de energia elétrica e discute as regras para a aprovação dos novos moradores na reserva.

Apresentações feitas, com lampejos eficientes na busca pela tradição em uma nova conjuntura, e equívocos, alguns deles graves, Filhos de Macunaima chega ao seu desfecho numa gigantesca e colorida confirmação de ocupação, com o Arraial Mucuxi, festa que reúne milhares de pessoas em Roraims e tem seu ponto alto na apresentação de quadrilhas. Uma delas é a que dá nome ao filme.

Antunes Ramos usa a festa para ressaltar a contradição, com a apresentação da dança tradicional num canto, no escuro e com um auto-falante que não se cala, e a quadrilha no palco principal, com todas as atenções do público. Embora a mensagem seja boa e o tema tratado real, é difícil acreditar naquilo que se vê depois de tantas encenações. Mas, ainda que pudesse ser mais distanciado no desenho dos personagens e mais equilibrado no estilo, isso não invalida o valor da descoberta e o olhar atento para os mucuxi e para essa reconfiguração de tradições.

Um Grande Momento:
A criança olha para câmera.

[13ª CineBH]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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