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Os Jovens Baumann

(Os Jovens Baumann, 2018, ano)
Suspense
Direção: Bruna Carvalho Almeida
Elenco: Julia Burnier, Isabela Mariotto, Marília Fabbro, Anna Santos, Julia Moretti, Cainã Vidor, Daniel Mazzarolo, Eduardo Azevedo, Julio Barga
Roteiro: Bruna Carvalho Almeida, Larissa Kurata
Duração: 70 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Entre o pseudodocumentário e a pseudoficção, o found footage e a narração opinativa, Os Jovens Baumann vai atrás do desaparecimento de uma realidade. As imagens que a narradora encontra em uma fazenda de café de uma proeminente família de Santa Rita d’Oeste são de 1992, quando o Brasil ainda estava sacudido pelo Plano Collor. Entre mudanças econômicas, uma abalou especificamente os produtores rurais, quando o cálculo de juros do crédito agrário foi duplicado, impossibilitando o pagamento e quebrando muita gente.

Aquelas imagens transportam o espectador para o que se seguiu. Os Baumann sumiram literalmente, mas representam toda uma classe de herdeiros com a vida supostamente garantida que deixou de existir, levando vários sobrenomes ao desaparecimento completo. As famílias seguem existindo, mas não ocupam mais qualquer lugar.

Dado o contexto, o longa-metragem de estreia de Bruna Carvalho Almeida, o transcende ao encontrar um caminho tão interessante para contar a história dos oito primos que passavam todas as suas férias na fazenda do avô. A época é explicitada em texto, mas está demarcada pelas imagens em VHS, sempre tão características. O que se vê remete aos filmes familiares que tanto estávamos acostumados a ver, sem lógica narrativa ou um roteiro prévio que determinaria cenas e eventos.

O estilo vai sendo abandonado gradualmente, à medida que a tensão cresce junto com a curiosidade pelo destino dos jovens. Novas cenas, posadas e ensaiadas, começam a surgir e com elas é possível ver a deterioração daquelas figuras. Uma específica, a dos primos sentados à mesa em silêncio em uma das últimas noites, é interessante na previsão do não-futuro. Como se ali os personagens tivessem se dado conta de suas realidades.

Carvalho Almeida não fica apenas naquele lugar. Há uma quebra em forma de salto temporal, quando a estética primeira é abandonada para mostrar o momento atual e apresentar a narradora e sua relação com aquela família. O choque entre a experiência imersiva e a invasão explicativa é curioso e funciona num primeiro momento. Há interesse nesse jogo de viajar entre dois tempos, embora falte parcimônia em sua utilização e alguma obviedade transpareça aqui e ali.

A diretora consegue trabalhar bem com as sugestões e se mostra muito competente na inserção no gênero fantástico, dando toques de horror ao seu suspense primeiro. Cenas como a de Tito por trás das chamas da fogueira contando histórias de terror – um clássico de filmes juvenis do gênero -, os barulhos que chamam a atenção, o uso do close-up para ressaltar reações estranhas de alguns personagens, ou o próprio found footage são responsáveis pela construção de uma atmosfera densa e eficiente no despertar de sensações primárias.

Há ainda brincadeiras com a linguagem, que, com seus travamentos de tela, chuviscos, fast-forwards e rewinds, e tela azul, causa soluços que contribuem para o estranhamento, sempre tão bem-vindo à manutenção do suspense.

Além da linguagem, há questionamentos sociais interessantes levantados pelo filme. Como quando fala da construção da represa, que fez desaparecer quatro cidades vizinhas à fazenda, mas aquele pedaço de terra não foi atingido, ou quando fala da presença naquele local e da diferença entre a narradora e os herdeiros: ela, desconfortável; eles, alheios. A perenidade da imagem é um outro ponto que se destaca. Embora tenham desaparecido, aquelas pessoas, cristalizadas pelas imagens, nunca deixarão de existir.

Potente como filme de gênero e interessado em experimentar na linguagem, Os Jovens Baumann é um interessante meio de resgatar uma quebra real de estrura. Foram muitos os herdeiros do café, milho, feijão e soja que deixaram de existir nos anos 1990. Recuperar isso e todos os contrastes que nunca deixaram de existir faz valer a experiência.

Um Grande Momento:
Em silêncio na mesa.

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[13ª CineBH]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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