(Casa, BRA, 2019)
Documentário
Direção: Letícia Simões
Roteiro: Letícia Simões
Duração: 93 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

O que está por trás da nossa estrutura familiar? A relação entre mãe e filha é uma icógnita, linda, doída; doida, sã; simples, complexa. Há uma mistura de reconhecimento e rejeição, pertencimento e ruptura, competição e admiração. São tantas contradições e sentimentos em um lugar que é difícil entender, mensurar, explicar. Essa não é a intenção de Casa, documentário pessoal de Letícia Simões, embora ela passeie por toda a complexidade que envolve a relação.

Interessada em descobrir a arquitetura bem própria de seus laços, pesquisando três gerações: ela, sua mãe e sua vó, e as relações entre elas, a diretora escancara o seu universo, mas o que expõe na tela vai muito além de sua particularidade. O cinema mundial, e em especial o brasileiro, passa por um momento de grande apreço pelo documentário pessoal, mas os registros de arquivos tornam-se enormes quando encontram a universalidade, e isso acontece com o filme de Letícia.

A dinâmica estabelecida entre ela e sua mãe, apesar de apresentar suas particularidades, é a mesma vivida por aquelas que assistem ao seu filme. E isso se repete também quando o jogo geracional alcança a sua avó. A relação entrecortada e incompreendida da mãe, que não entende como a filha não pode enxergar sua mãe como ela a vê é incrível. É como se a casa do título não pertencesse a ninguém especificamente, mas pertencesse a todas ao mesmo tempo.

Além das relações, há muito da coragem da diretora em expor sua figura ao se colocar em quadro. Ela assume os riscos, fala tudo o que sente e pensa diante da câmera. Embora atue – todos sempre atuam em um documentário, vale lembrar –, há muita verdade naquilo que ela quer descobrir em sua autopesquisa. E muita coisa é descoberta.

Casa é um filme que cativa por seu tema e pela universalidade daquilo que conta. Com personagens interessantes e um bom desenvolvimento, fica na cabeça de quem o assiste, reverberando relações que estão, ao mesmo tempo, muito próximas e distantes dele. Quem disse que o cinema dos outros, mesmo sendo pessoal, não pode tratar as nossas próprias coisas?

Um Grande Momento:
Você não conhece a sua avó.

[43ª Mostra de São Paulo]