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O Clube dos Canibais

(Clube dos Canibais, BRA, 2018)
Terror
Direção: Guto Parente
Elenco: Tavinho Teixeira, Ana Luiza Rios, Pedro Domingues, Zé Maria, Rodrigo Capistrano, Alcântra Costa, Lc Galetto, Fátima Muniz, Galba Nogueira, Bruno Prata, Ana Cristina Viana
Roteiro: Guto Parente
Duração: 81 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Desde os primeiros minutos de O Clube dos Canibais, é muito fácil identificar a mensagem que o longa-metragem que passar. A cena inicial se desenvolve naquele que se tornou um símbolo imagético da divisão de classes: a piscina. Nela, Gilda olha com desejo para o seu empregado. A estetização da cena direciona ao caráter social da mensagem, que é confirmado com os eventos que se seguem.

Entre o grafismo da violência, muito explícito no vermelho sangue, e do sexo, Guto Parente atinge o pano de fundo de seu longa-metragem, aquele que não só dá nome ao filme como também justifica toda a trama. As refeições inusitadas remetem a Raphael Montes. Mesmo que motivações e desenvolvimento apareçam aqui de forma mais madura, há muitas cenas que lembram os banquetes com carne de gaivota de “Jantar Secreto”.

Voltando à estética de O Clube de Canibais, a fotografia de Lucas Barbi e a direção de arte de Lia Damasceno destacam os contrastes. Os personagens também são desenvolvidos para estimular a empatia – ou antipatia – dos que veem o filme. Seja na postura corporal ou nos diálogos, os protagonistas vão se distanciando e adquirindo contornos preconceituosos, que vão do machismo à exclusão, e que contrariam qualquer possibilidade de aproximação.

No gore, Parente estabelece a sua metáfora sobre o elitismo e a insignificância da vida humana para aqueles que não estão nos mesmos círculos, ou seja, representa a sociedade brasileira de hoje e a de 600 anos atrás. O terreno por onde anda é fértil e o contexto, urgente.

Porém, há uma desconexão com o gênero. Quando se escolhe o horror, metáforas não precisam e nem podem ficar sendo explicitadas a todo momento no texto do filme. O alcançar do tema, vem de outra forma, mais intuitiva e ligada aos instintos primitivos que determinam o andamento da trama.

A superexposição faz com que outras quebras se sobressaiam, a tensão deixa de existir e sua ausência evidencia a irregularidade nas atuações que está por todo o filme, com exceção de Tavinho Teixeira e Zé Maria sempre muito seguros. Cenas como a da apresentação da propaganda ou os rapapés com o deputado não acrescentam e sacam o espectador do filme.

Ainda assim, O Clube dos Canibais é um filme que consegue sobreviver aos deslizes, se recuperando dos afastamentos que provoca e da literalidade excessiva. Encontra interesses em questões diversas e no próprio reconhecimento da sociedade, mas é mesmo no ápice da ação, com os ótimos efeitos especiais de Rodrigo Aragão, que se fortalece. Os momentos finais são tensos na medida e seguem os passos de uma boa construção de suspense.

Sequências como aquela por dentro da casa, pelas passagens secretas, fazem um bom uso da repetição. Embora nem sempre sejam precisos, artifícios como trilha sonora, música grave e ausência de luz também são bem aproveitados. O Clube dos Canibais consegue se reinventar e se estabelecer como um bom filme splatter.

Pena que além do terror gráfico, não é tão sutil quanto o seu desfecho, quando volta ao início de tudo, na mesma piscina, mas apresenta a inversão de posições e papéis que interessa desde o primeiro momento.

Um Grande Momento:
Na passagem secreta.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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