Crítica | FestivalFestivais e mostras

Her Smell

(Her Smell, EUA, 2019)
Drama
Direção: Alex Ross Perry
Elenco: Elisabeth Moss, Cara Delevingne, Dan Stevens, Agyness Deyn, Gayle Rankin, Ashley Benson, Dylan Gelula, Eka Darville, Lindsay Burdge, Hannah Gross, Virginia Madsen, Eric Stoltz, Amber Heard, Daisy Pugh-Weiss, Jessie Pinnick
Roteiro: Alex Ross Perry
Duração: 134 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

A subida ao céu e a descida ao inferno. É isso que traz o novo filme de Alex Ross Perry, Her Smell, ao acompanhar o cotidiano de Becky Something, líder de uma banda de punk rock. A história começa a ser apresentada com uma colagem que intercala flashs, com imagens de baixa qualidade, de quando vemos o despontar de Beck com o sucesso de banda que leva seu nome, Something She, e o momento em que o trio se prepara para voltar ao palco para o bis em um show qualquer. A empolgação já sem limites de antes realiza-se em algo ainda mais desgarrado no presente.

É o começo de uma espiral frenética e ansiosa, cuidadosamente montada pelo diretor, que não economiza nenhum exagero e loucura na manipulação de um público que sempre encontra mais do que esperava. Não é apenas o ambiente junk, alcóolico e alucinado, há ainda um guru espiritual e um bebê para fazer com que o choque das primeiras cenas seja ainda mais intenso. Não é só a loucura química, há também toda uma trama de paranóia destrutiva que acompanha todos os passos da protagonista.

O que se vê é a superexposição de uma Beck já destruída, que agride e afasta todos que estão perto dela. Alguém que não consegue mais cumprir sua agenda, que não sabe mais onde deve ir e para onde deve voltar. Se o maior exemplo é a equivocada busca espiritual, há todo uma realidade de alma perdida, de alguém que assumiu uma persona inexistente, que repele qualquer coisa que tente alguma aproximação.

Becky é um saco, mas é uma pessoa livre dentro de sua realidade. É impossível se manter alheio à sua presença, assim como é extremamente difícil querer permanecer perto dela. E isso não só para os outros, mas para ela própria. O seu se perder em sua autodestruição faz com que Becky vá se desvencilhando de tal forma que o deixar de existir naquele seu universo torna-se cada vez mais uma realidade. É entre a raiva e pena que Ross Perry faz questão de deixar o público, sem dar muito espaço para sentimentos mais amenos, pelo menos até que chegue ao ponto de virada do filme.

Sim, ele existe. E uma espécie de paz desconfiada chega quase que inesperadamente depois de tanta exposição ao caos. A tensão antes sempre presente, dá lugar a momentos onde uma espécie de relaxamento passa a existir. É no respiro prolongado que a personagem se ressignifica, seja na percepção da doença ou na liberdade perdida. A destruição chegou e o que se vê do que sobrou de Becky é contraditório e desconfiado, mas encontra um outro lugar, uma outra iluminação, outra maquiagem, outro ritmo. Que nunca se sabe se vai permanecer assim por muito tempo ou não.

Se a direção de Alex Ross Perry faz questão de trabalhar a tensão, e ele faz isso de maneira realmente impressionante, em manipulação, sufocamento e oscilação, a grandiosidade controversa de Becky encontra o espaço perfeito na atuação de Elisabeth Moss. A atriz consegue tornar palpável toda a contradição e desmantelo de sua personagem. Ainda que não seja brilhante nas cenas de palco, ela confere verdade a Becky, por mais que o exagero seja o elemento principal na narrativa. Não há nenhum momento em que não se reconheça a pessoa quebrada, fora das regras, que se vê perdida entre o complexo de inferioridade e a egolatria sem limites.

Her Smell é um filme que incomoda, mas é feito justamente para isso. Ainda que se entregue e não resista a clichês (aqui a gente pode falar até da inesperada – porém bela – inserção de uma canção de Bryan Adams), e por mais que esbarre em algum moralismo e cace a redenção, tem uma construção tão impressionante que vale cada minuto da projeção.

Um Grande Momento:
“Heaven”.

Links

IMDb

Trailer

[21º Bafici]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo