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Alpha: The Right to Kill

(Alpha: The Right to Kill, PHI, 2018)
Drama
Direção: Brillante Mendoza
Elenco: Allen Dizon, Elijah Filamor, Angela Cortez, Baron Geisler, Jalyn Taboneknek
Roteiro: Troy Espiritu
Duração: 94 min.
Nota: 3 ★★★☆☆☆☆☆☆☆

“Matem os criminosos, e eu os protegerei”. Esta era a campanha de Rodrigo Duterte para a polícia quando, em 2016, concorria à presidência das Filipinas. Sua principal promessa de governo era eliminar as drogas do país. Eleito, o agora presidente completará 3 anos frente ao cargo em julho próximo. Até o final do ano passado, mais de 6.000 pessoas foram mortas numa absurda campanha antidrogas, onde supostos traficantes são executados sem justificativas ou explicações.

A falta de humanidade é apoiada pela maioria da população filipina e pelo mais conhecido diretor de cinema do país, Brillante Mendoza. Se as drogas já eram tema de seus filmes antes das eleições, têm andado ainda mais presentes em suas últimas obras, da televisão ao cinema. Mendoza apoia publicamente a guerra antidrogas como algo necessário ao país e, mesmo que não seja tão evidente, isso está em Alpha: The Right to Kill (continuação da série Amo, lançada pela Netflix).

A simples associação é complexa e exige um esforço ainda maior de quem vai assistir à obra. Tem qualidades técnicas óbvias: Mendoza sabe filmar, constrói como poucos uma ficção com se documentário fosse e tem uma ótima noção de ritmo e tempo. O seu explorar de Manila é interessante, assim como o modo como dá corpo aos personagens criados pelo roteirista Troy Espiritu, seu parceiro também em Ma’Rosa.

Porém, é no fascismo escondido por trás de tudo que está o maior problema do filme. O tratar uma situação – ainda que descontrolada – como mal único, e não condenar o extermínio como possibilidade de solução é algo tão grave que choca. Em Alpha: The Right to Kill, o diretor até chega a buscar um outro caminho, trazendo o problema para dentro de instituições corrompidas, mas faz exatamente o mesmo jogo de validação da eliminação humana. A droga seria então o grande mal e é natural que se queira eliminar tudo que com ela se relacione. É o que eles merecem.

Ainda que no equívoco, e mesmo que não perdoe ninguém, há uma tentativa de criar uma espécie de “maior merecimento da morte” com o modo de apresentação dos dois protagonistas. A manipulação do apego é evidente, e indica o modo como o diretor enxerga aquela sociedade, mas sem que isso realmente faça qualquer diferença. A superficialidade é assustadora.

Neste momento tão difícil pelo qual o mundo passa, onde discursos de ódio encontram tanto espaço, é desolador sentar diante de uma obra que apenas expõe o extermínio e cria tensão em cima disso. Como se tudo o que está por trás desta realidade, e estamos falando de vidas aqui, fosse menos importante.

É como estar vivendo num mundo invertido, onde o absurdo virou palatável, onde a violência é bandeira de governo, onde a intolerância é cultivada. Tudo numa maneira moderna de exterminar os mais indefesos, aqueles que já estão à margem do sistema.

Um Grande Momento:
A tomada do lugar.

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[21º Bafici]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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