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Mente Revólver

(Mente Revólver, MEX/EUA, 2017)
Drama
Direção: Alejandro Ramirez Corona
Elenco: Baltimore Beltran, Hoze Meléndez, Bella Merlin, Adolfo Madera, Rubi Kazar
Roteiro: Alejandro Ramirez Corona
Duração: 90 min.
Nota: 4 ★★★★☆☆☆☆☆☆

Mente Revólver segue a linha dos muitos filmes-mosaico, onde tramas paralelas se cruzam para compor uma história, expondo e valorizando uma realidade comum. Aqui a que interessa é a violência urbana.

São três pessoas: Mario Aburto, baseado em um personagem real, que acaba de deixar a prisão após ter sido condenado pelo assassinato do candidato à presidência Luis Donaldo Colosio, em 1994; Chicali, um aspirante a músico que, após perder seu outro emprego, alista-se na polícia mas rapidamente é obrigado a transformar-se em sicário, e Jenny, uma sem-teto norte-americana que encontra um revólver no lixo e cruza a fronteira para vendê-lo.

As ações se dão em Tijuana, no México. Considerada a cidade mais violenta do mundo em 2018, o filme faz do local uma representação de um país colapsado pela violência, onde as epidemias são de assassinatos, não de doenças. Só para se ter uma ideia, no ano passado foram mais de 38 mil homicídios no país da América do Norte.

É essa violência que define a vida do trio de personagens e aquilo que acaba os aproximando. A intenção do diretor Alejandro Ramírez Corona de olhar para sua realidade e tentar humanizá-la é boa e, sem dúvida, tem a sua validade. Porém, ainda que seja certo que a violência atinja mais uma classe social, tanto como vítima ou algoz, há toda uma maquinaria de abandono, opressão e manipulação por trás que não pode deixar de ser percebida e acusada.

É no México abandonado pelo governo, dominado pelo narcotráfico, onde a pobreza e a falta de oportunidades são a realidade da maioria que a violência se fez possível e tornou-se aquilo que é hoje. Nada muito distante da realidade que conhecemos aqui ou vemos ao olharmos para outros países da América Latina. O que incomoda, portanto, é que o filme mire apenas em uma das camadas desse problema, justamente aquela que se encontra sem opção.

Claro que o diretor é soberano na hora de escolher o recorte que pretende, e o filme funciona bem na construção da ação, mas aquilo que deixa para trás reforça estereótipos que muito mais prejudicam do que ajudam, tanto na compreensão quanto solução da questão.

À parte disto, Mente Revólver tem bons momentos. Corona é habilidoso com a construção da tensão e cria uma jornada frenética com pouquíssimos momentos de respiro. Sua familiaridade e habilidade com a trilha musical influencia diretamente (e positivamente) no ritmo do filme. Além disso, com direção de fotografia de Victor Da Vila, há um inegável cuidado e vários planos muito bem executados.

Como filme-mosaico tem deslizes característicos do estilo: embora indique uma atenção especial a Mario nas primeiras cenas, e o destaque como ponto de comparação entre eventos de seu passado e o início de um ciclo de violência, o personagem melhor desenvolvido é Chicali, com maior atenção a fundamentos e elementos. Menos aprofundada, Jenny aparece mais como uma tentativa de explicitar a conturbada vizinhança, mas sem tanto sucesso.

O desequilíbrio está também na dedicação do roteiro a eventos específicos e à personalidade de suas personagens. Tem seus acertos, como a relação de Jenny com a foto do pai, mas nem sempre apresenta o mesmo cuidado e sutileza com outros encontros ou situações. Toda a relação com o traficante que compra a arma é um exemplo disso.

Mente Revólver, portanto, é um filme que quer falar de um assunto relevante; ainda que tecnicamente não acerte sempre, busca um meio de fazê-lo de forma ousada, e funciona muito bem como exemplar do gênero ação. Mas é difícil passar por cima do modo quase simplista com que acessa algo tão mais grave e tão mais complexo. Deixar parte fundamental dos responsáveis subentendida e dedicar tanto tempo à exposição de configurações estereotipadas, tão divulgadas e excludentes, compromete.

Um Grande Momento:
A ansiedade de Chicali.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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