Crítica | Festival

In the Same Breath

A pandemia e a mesma negligência

(In The Same Breath, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Nanfu Wang
  • Roteiro: Nanfu Wang
  • Elenco: Triste realidade, o coronavírus mudou a vida de todos e In The Same Breath mostra onde tudo começou e como os governos trataram a questão.
  • Duração: 95 minutos

Muitos documentários surgem no calor do momento. Diretores que estão no lugar certo, na hora certa. Foi quase assim com Nanfu Wang e seu filme de urgência — como chamamos as produções realizadas ainda durante os acontecimentos e sem muito distanciamento — In The Same Breath. A diretora do potente One Child Nation estava nos Estados Unidos tocando seus projetos, mas seu filho pequeno tinha ido passar o final do ano na China com a avó, na província de Jiangxi. O local é vizinho de uma outra província que se tornou famosa no mundo inteiro: Wuhan, aquela onde surgiram os primeiros casos de Covid-19, doença viral que se espalhou pelo mundo causando inúmeras mortes e, até hoje, segue fazendo vítimas.

Com o agravamento da pandemia, o marido e pai do pequeno foi até o local e Wang foi encontrá-los para que todos fossem juntos para casa. Lá a diretora deparou-se com uma situação que não era exatamente a que esperava e percebeu o material importante que tinha diante de si. Decidiu que seria necessário produzir um curta sobre tudo o que estava acontecendo e começou a fazer contatos para juntar material, desde comunicados oficiais até todo tipo de material que pudesse comprovar como as atitudes do governo poderiam estar fazendo com que a situação se agravasse ainda mais. A relação realidade e propaganda governamental já foi explorada anteriormente por Ai Weiwei em seu longa Coronation, mais frontalmente do que aqui, inclusive.

Em In The Same Breath, há um destaque maior para a forma, algo que direciona mais para o método e que fará mais sentido com a segunda parte do filme. A primeira vez em que Wang joga com isso é com o comunicado na imprensa de que oito pessoas foram investigadas pelo governo por divulgar informações falsas que ameaçavam a ordem social. As informações “falsas”, não repetidas, eram as de que pessoas diferentes que estavam ligadas ao mercado de Huanan haviam apresentado sintomas semelhantes aos da Sars e que isso poderia ser o princípio de um surto. Uma dessas pessoas foi o médico Li Wenliang, que morreu depois de contrair a doença. Ele fez o comunicado no dia 30 a um grupo de médicos, na véspera da festa do Ano Novo, que aconteceu reunindo milhares de pessoas, como se nada estivesse acontecendo.

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O documentário intercala a desinformação e imagens claramente propagantistas com consultórios, atendimentos hospitalares, médicos e enfermeiros cada vez mais protegidos, entrevistas com familiares. Quando Wang deixa a China para voltar para casa, a sua ideia se transforma. Seu curta deixa de fazer sentido, porque o problema é muito maior do que aquela realidade que ela encontrou no seu país natal. Ao entrar nos Estados Unidos sem nenhum tipo de teste e depois de levar seu filho doente ao hospital, ninguém se importar com os sinais de gripe que ele apresentava e ela e sua família fazerem uma quarentena voluntária, a diretora percebeu que o descaso governamental aqui valeria uma continuidade na investigação.

In The Same Breath acabava de virar o longa. A padronização das notícias na ditadura chinesa, com releases produzidos pelo próprio governo sendo lidos nos noticiários de todos os canais de televisão não se apresentava da mesma maneira na América, mas as declarações de especialistas na televisão, repetidas insistentemente, de que era apenas uma gripe e que assim deveria ser tratada — aqui no Brasil ouvimos isso, né? — foi repetida à exaustão. Donald Trump, assim como Xi Jinping, desprezou a doença, e os cuidados para a contenção da pandemia nunca foram devidamente tomados.

Esse trabalho de comparação é incrível e assustador. Perceber toda a campanha de desinformação, como ela funciona e quantas pessoas ela matou por descaso, ou o quanto diminuiu a crença na letalidade da doença, e quantas ações egoístas assassinas legitimou é terrível. Estar no Brasil, sob o governo de Bolsonaro, com quase 300 mil mortes por causa da pandemia, piora bastante o sentimento, porque o método é exatamente o mesmo, ainda que, diferentemente, sem qualquer capacidade de amenização do problema. In The Same Breath ainda faz um exercício de imaginação, quando pensa como seria se os primeiros alertas fossem ouvidos e a festa de réveillon de Wuhan, que reúne milhares de pessoas em um único lugar, fosse evitada. É duro.

Triste realidade, o coronavírus veio para mudar a vida de todo o mundo e Wang conseguiu estar dos dois lados do globo. Ela pôde estar no local onde tudo começou e acompanhar de perto a forma como os governos lidaram com a questão. Por sua ligação com os dois lugares, foi capaz de construir uma relação particular com cada um. O resultado é uma pancada. Necessária, urgente e angustiante.

Um grande momento
Reimaginando

[SXSW 2021 – Film Festival]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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