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JJ+E

Aquela velha história

(Vinterviken, SWE, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Alexis Almström
  • Roteiro: Dunja Vujovic
  • Elenco: Mustapha Aarab, Elsa Öhrn, Magnus Krepper, Marika Lagercrantz, Simon Mezher, Loreen, Magnus Krepper, Marika Lagercrantz, Simon Mezher
  • Duração: 90 minutos

Era por volta de 1595, um homem levantava de sua mesa. Havia acabado de escrever as últimas linhas de uma tragédia adolescente de amor romântico. Ele era Shakespeare e nem imaginava que aquela peça que estava em suas mãos tornaria-se a referência máxima de amores impossíveis na ficção. Com o tempo, novas configurações do impedimento da concretização da paixão foram surgindo e houve um casamento entre aquela trama e uma outra de tempos idos, muito presente nos contos orais, de cunho social.

Nessa outra vertente, Romeu e Julieta não eram mais impedidos de ficar juntos e realizarem o seu “amor eterno” — aquele que só os adolescentes podem ter — por causa de uma rixa familiar. A questão era muito mais profunda: a realidade social, os privilégios, o dinheiro que os separavam. São muitos os filmes que deixam a literalidade da obra do bardo para adotar a narrativa da pessoa pobre que se apaixona pela pessoa rica, com gêneros variados, e não pode ficar com ela. O que essas obras têm em comum é como, mesmo referenciadas, se distanciam da referência, até por quase nunca bancarem o seu desfecho.

JJ+E
© Johan Paulin / Netflix

JJ+E, filme sueco disponível na Netflix, é, sem dúvida, uma versão moderna e atualizada que elimina vários personagens e tramas, mas mantém o arco básico do nascimento da paixão, a entrega, a proibição, a descoberta e a salvação. Quando se distancia muito, cenas específicas trazem a peça à tela, ainda que em situação diversa, como o pedido de desculpas, o primeiro beijo ou a saída do túnel. Por trás de tudo está a homenagem em forma de curso de teatro. O jogo de Alexis Almström é interessante, pena que, muito preocupado em impressionar e menos profundo do que precisava ser, não funciona como deveria.

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Ao optar pela concentração, numa fase já avançada da história, Dunja Vujovic, responsável pela adaptação do livro de Mats Wahl, tem que dar conta de construir personalidades rápido demais e se atrapalha. A ajuda que poderia vir com as atuações, também não chega. Elsa Öhrn, a Elisabeth ou E do título, se transforma de uma hora para a outra sem convencer. Parte disso está relacionado à superficialidade de um texto que privilegia um dos lados da relação e dedica-se pouquíssimo a ela, e a outra parte à imaturidade da atriz que, mesmo nas horas em que recebe alguma atenção, tem uma participação apagada e pouco envolvente.

JJ+E
© Johan Paulin / Netflix

John-John ou JJ, portanto, com mais tempo de tela, falas, atenção e sendo dono da trama, tem muito sucesso na missão, certo? Não exatamente. Há um atropelo de situações e embora Mustapha Aarab tenha mais um pouco de domínio de cena, também não consegue fazer muita coisa além do que lê. Os eventos de sua vida vão se encavalado, todos acontecem rápido e ao acaso demais. E incomoda ver que o que falta de atenção ao desenvolvimento do personagem sobra em exposição, em um visual bem elaborado com direção de fotografia de Niklas Johansson e seus muitos ângulos e planos diferentes.

E assim seguimos até o final previsível. Pequenos detalhes aqui e ali trazem algum tempero diferente à trama, porém, o que vemos não é diferente do que já vimos antes muitas e muitas vezes. É um daqueles temas que nunca acabam e que, depois de tantas recontações e adaptações por aí, poucos são os que conseguem inovar. JJ+E é uma tentativa que não funciona para velhas audiências, mas chega agora para um novo público, menos saturado dessas histórias e que talvez sinta menos. Além disso, são muitos os tropeços de direção, roteiro, montagem e interpretação, coisas que vão muito além do que está sendo contado. 

Um grande momento
O primeiro beijo.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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