(Jonas e o Circo sem Lona, BRA, 2015)
Documentário
Direção: Paula Gomes
Elenco: Jonas Laborda, Wilma Macedo, Neide Silva, Mateus Lima, Gutinho Silva, Alexia, Tainara, Ana Paula Araújo, Ian Laborda, Wanderson Silva, Professora do Carmo, Professora Sandra
Roteiro: Paula Gomes e Haroldo Borges
Duração: 83 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

A infância é a fase da vida na qual o lúdico é permitido sem julgamentos, onde se pode sonhar e brincar de astronauta, bailarina, vocalista de uma banda. A imaginação corre solta e tudo é possível.

Jonas não teve uma infância diferente, a vontade de ser um artista de circo provavelmente se instaurou nessa época e o acompanha até a sua adolescência, etapa da vida retratada pelo filme Jonas e o Circo sem Lona. Porém, apesar da demonstração genuína do garoto de sua vontade de seguir uma vida circense, ele começa a enfrentar a pressão para estudar e seguir a vida de uma forma, digamos, mais tradicional.

O documentário é a estreia da diretora baiana Paula Gomes, que também assina o roteiro ao lado de Haroldo Borges. Filmado na região metropolitana de Salvador, a produção conta a história de Jonas, que tenta manter a sua paixão circense viva ao criar seu próprio circo no quintal da casa da mãe. O amor pela arte vem de berço, pois Jonas faz parte de uma família circense, mesmo que apenas um tio tenha seguido na carreira.

O filme não tem como objetivo mostrar o cotidiano dos artistas circenses. O circo aqui serve como uma grande metáfora para a passagem de Jonas da infância à adolescência. Os desafios que ele enfrenta para não deixar o seu circo Tropical morrer são o pano de fundo ideal para o espectador encarar a própria infância, “que ficou para trás, mas que podemos encontrar mais adiante”.

O garoto mora com a mãe e a avó. Esta é a única apoiadora do neto, ela o incentiva a ser persistente e levar adiante o seu sonho. Já Wilma, sua mãe, trabalha como vendedora de roupas íntimas e, apesar de também já ter se aventurado no circo, quer que Jonas foque em seus estudos ao invés de se dedicar à vida no picadeiro. Completando o rol de pessoas que desencorajam o pequeno artista, estão algumas colegas de escola e sua professora.

O não entendimento da professora sobre o porquê de Jonas ter merecido ser personagem de um documentário e sua dificuldade em compreender o comportamento de Jonas na escola são preocupantes e demonstram a realidade do atual sistema educacional brasileiro.

Além da falta de apoio para seguir com seu sonho, Jonas enfrenta também a dificuldade em manter o circo Tropical em atividade. Os seus companheiros de circo, muitas vezes, não têm tempo para ensaiar, e outros se mudaram ou moram longe. É a partir do momento em que a produção mostra a frustração de Jonas com essas dificuldades, que o filme cresce.

A capacidade em conduzir as perguntas certas e fazer Jonas verbalizar os sentimentos que estamos percebendo através do seu olhar, mostra a sensibilidade da diretora, que, de uma certa forma, acaba sendo uma personagem do filme. A ligação que ela constrói com Jonas e sua família é nítida na obra, sendo que esse elo parece ser fundamental para que o filme atinja seu objetivo de mostrar o fim da infância.

Daí nascem as melhores cenas do filme, aquelas que mostram a cumplicidade entre diretora e protagonista. O acolhimento de alguém que parece entender exatamente o que ele está passando, traz a Jonas um alento. Aliás, não apenas para ele, pois há toda nostalgia gerada em quem assiste ao documentário.

No final das contas, Jonas e o Circo sem Lona não é sobre um circo. Extremamente delicada, a produção é sobre vontade de ser aquilo que se sonhou quando criança. O longa-metragem é um afago naqueles sonhos de infância.

Um Grande Momento:
“Por que mesmo vocês estão fazendo um filme sobre mim?”

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