Crítica | CinemaDestaque

Jurassic World Domínio

Deixem os dinos descansar

(Jurassic World Dominion, EUA, MAL, 2022)
Nota  
  • Gênero: Aventura
  • Direção: Colin Trevorrow
  • Roteiro: Emily Carmichael, Colin Trevorrow, Derek Connolly
  • Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Sam Neill, Laura Dern, Jeff Goldblum, DeWanda Wise, Isabella Sermon, Campbell Scott, Omar Sy, Mamoudou Athie, Scott Haze, Justice Smith, Dichen Lachman
  • Duração: 146 minutos

Em determinado momento de Jurassic World Domínio, a dupla da nova trilogia formada por Chris Pratt e Bryce Dallas Howard encontra o trio original, Laura Dern, Sam Neill e Jeff Goldblum, e isso deveria ser o ponto alto e grande chamariz desse novo (último?) episódio. É. Aí esse momento passa, e o filme literalmente não faz nada com isso. Na verdade, já não tinha feito muito anteriormente a isso, e seguimos enquanto espectadores tentando entender como chegamos até ali, na expectativa por uma série que não tem mais nada a oferecer de novo. Os aficcionados dirão que sim, mais uma vez somos apresentados a um novo dinossauro criado pelo filme, e dessa vez temos um bichão peludo que… bom, as habilidades dele são um “charme” que não entregarei. Mas mesmo diante desse novo personagem, mesmo diante do encontro de tribos clássicas, seguimos olhando para frente.

Entendemos com alguma facilidade uma vontade de apelar a um saudosismo em torno de uma série que nasceu há 30 anos, e nos acompanha com regularidade desde então. Mas há muitas diferenças bem pouco básicas, por exemplo, entre Top Gun: Maverick e esse título dirigido por Colin Trevorrow. Enquanto o novo sucesso de John Kasinski aposta no reencontro entre o público e um universo que tínhamos encontrado pela última vez há 36 anos, o multiverso criado originalmente por Steven Spielberg talvez já tenha dado frutos demais. A percepção quanto a isso fica na certeza dessa cena descrita acima: se não há uma grande preparação para ela, isso também se deve ao fato de que nunca estivemos longe de sua base. Mesmo os doutores Alan Grant, Ellie Stapler e Ian Malcolm reapareceram em outros episódios. Como sentir saudades, arrepio na espinha e ansiedade pelo reencontro com amigos do qual você nunca se afastou?

Jurassic World Dominion
Universal Studio/Amblin Entertainment

Outra pedra fundamental pra entender o lugar desse novo filme é que, por mais boa vontade que haja em Trevorrow, ele não tem (ou já cansou de tentar ter) a motivação estética que precisaria para renovar nossa confiança pela série. Tudo que é apresentado de “novo” em Jurassic World Domínio, tem nada de muito novo. A nova sede que explora os dinos e seus DNAs, a tal da Biosyn, montou um parque de estudos cuja estrutura lembra a do Jurassic World – escondida numa ilha, entre vales, com grande tecnologia e não sei o que lá. Na verdade, tenho pra mim que nem isso é muito explorado; de qualquer forma, acredito que se fosse, daríamos de cara com o mais do mesmo que somos sutilmente apresentados. A motivação estética do filme parece ter encontrado um teto, do qual o filme não parece ter muito interesse em perfurar. Como se alguém dissesse “lembra disso?, então, vocês já viram, é bem parecido, esquece e segue”, dando origem a muitos planos fechados e pouca imaginação real.

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A bem da verdade é que o filme demora bem uns 40 minutos pra deslanchar. Até virar uma chave, o filme gira em torno de uma lógica meio boba, meio besta, ecologicamente correta sobre a comunhão entre seres pré-históricos e humanos. No longa anterior, a bicharada escapou de vez e montou seu habitat onde quis. Os primeiros breves 5 minutos, apresentam a ideia e ela parecia bacaninha, mas essa impressão não dura. Caçadas por animais proibidos, a apresentação de uma adolescência tão insuportável quanto qualquer outra, e um ritmo com o freio de mão bastante puxado não anima ninguém. Passa um bom tempo até acreditarmos minimamente que haverá saída da armadilha que nos metemos, em uma apresentação bem mais longa do que deveria, que só acrescenta aborrecimento à mistura.

Jurassic World Dominion
Universal Studio/Amblin Entertainment

Passado esse início bastante esticado, os personagens chegam então a Malta, em um daqueles esquemas tradicionais que a série 007 nos acostumou, de levar por qualquer motivo que seja as produções para o mundo todo. A partir dessa viagem, aí sim o filme começa, dando pra dizer inclusive que é o momento onde o filme parece mais instigante, e definitivamente solar. É uma aquisição visual que Jurassic World Domínio não volta a demonstrar mais, embora seu ritmo de fato se acerte a partir daí. São sequências vibrantes, de cores vivas, onde a melhor nova personagem é apresentada, a piloto Kayla vivida por DeWanda Wise. Daqueles tipos de atrizes onde o porte define sua qualidade, me lembrou a qualidade que Tati Gabrielle trouxe a Uncharted, com lábia e postura condizentes a uma mudança de jogo geral na produção, que não se livra dela, felizmente.

Entrando nos trilhos, o filme segue enfim movimentado e naquele clima de montanha russa que a série nos acostumou, mas não é suficiente para que seja cooptado ponto a favor. Se alguém disser que eu não gostei de Jurassic World Domínio, será uma grande mentira. Quanto à se empolgar… de fato, a excitação não existe. Reencontrar Sam, Jeff e Laura juntos faz um carinho bom no coração, as aventuras pelo qual os personagens passam na nova ilha de dinos entretém, algumas cenas (a fuga de Kayla e Owen pelo gelo, por exemplo) empolgam de verdade, mas não é o suficiente para tirar do ar a sensação de que a fórmula esgotou por completo. Suas sequências finais em clima de último capítulo de novela – bem deprimentes, até – fazem com que a saída do cinema seja ainda menos animada.

Um grande momento
Perseguição em Malta

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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