Crítica | Streaming

Justiceiras

(Do Revenge, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Jennifer Kaytin Robinson
  • Roteiro: Celeste Ballard, Jennifer Kaytin Robinson
  • Elenco: Camila Mendes, Maya Hawke, Austin Abrams, Rish Shah, Talia Ryder, Alisha Boe, Ava Capri, J.D., Paris Berelc, Maia Reficco
  • Duração: 118 minutos

Difícil dizer quantas vezes o cinema já voltou ao ambiente escolar para contar histórias de vinganças elaboradas e rainhas caídas. Isso porque esse encontro de um meio diverso, volúvel e inflamável, até pela alta concentração e confusão hormonal, e um quê de identificação facilitam bastante o percurso. Justiceiras, novo hit da Netflix vai beber nessa mesma fonte e, apesar da premissa batida, ganha muitos pontos em detalhes que o modernizam e diferenciam de títulos padrão, além de trazer à tela rostos muito conhecidos e adorados pelo público. Num mega crossover de todas as séries de sucesso da atualidade, tem representante no elenco para fãs de todos os gostos: de Riverdale, Stranger Things, Euphoria, 13 Reasons Why, Ms. Marvel e por aí vai.

No longa, Drea, vivida por Camila Mendes, é a garota mais popular da escola. Sabemos que ela não chegou ali sendo legal — ela mesmo diz isso — e estamos prestes a ver sua derrocada. Depois de ter sua intimidade exposta pelo namorado, com um vídeo vazado, e perder quase tudo, ela se junta a Eleanor, papel de Maya Hawke, uma outsider que conhecera no acampamento de tênis e está prestes a mudar para a mesma escola. O interessante no roteiro de Celeste Ballard e Jennifer Kaytin é que tudo segue um padrão conhecido, mas as peças estão em outros lugares, com históricos de personagens diferentes e uma trama que, apesar de simples, busca a diferença e uma certa elaboração. 

Justiceiras
Kim Simms/Netflix

O fato de Drea e Eleanor terem origens em ambientes muito restritos para tramas do gênero – a primeira é uma garota com pouca grana e a segunda, homossexual assumida – transforma o desenvolvimento, atualizando o padrão e redefinindo configurações ultrapassadas. Obviamente, Justiceiras não é um filme tão militante assim, ainda está bem preso numa certa definição classista e cisnormativa, mas deixa sua mensagem nessas pequenas transformações e novas representações. Principalmente no que diz respeito à mulher. O discurso anti-machista está ali delimitado, sendo a válvula motriz do enredo e ora aparece como protagonista, ora como coadjuvante.

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Nada disso vem de forma forçada ou descabida. Narrado por suas protagonistas, o longa é bem amarrado e bem distribuído em tensão e humor. Jennifer Kaytin Robinson, em sua segunda direção, busca a identificação com o universo juvenil, e exagera propositalmente na estética, fazendo uma caricatura daquele mundo tão contaminado pela vontade de parecer e aparecer. Ela não economiza nas cores, nos materiais – aliás, o figurino de Alana Morshead é incrível – e nem na trilha, criando uma estética muito curiosa para levar o espectador em visitas a lugares conhecidos, indo de As Patricinhas de Bervely Hills a Pacto Sinistro, ou de Meninas Malvadas a Atração Mortal, traçando um caminho único que faça sentido, numa construção que, mesmo assim, é original.

Justiceiras
Kim Simms/Netflix

A falta de obviedade do roteiro também ajuda na imersão. É tão comum sabermos exatamente o que vai acontecer nesses filmes que, quando Justiceiras surge, partindo de um lugar diferente e apostando em reviravoltas inusitadas, ele ganha pontos extras. Há falhas aqui e ali, uma vontade muito grande de passar mensagens que nem sempre se concretiza e, também, aqueles momentos de repetição, não só do que já esteve na trama como do que já se viu exatamente igual em outro lugar, ultrapassando aquela tênue linha da homenagem ou referência, como a cena do confronto no aniversário, mas eles são realmente raros.

Além do elenco carismático e eficiente, do bom roteiro e da direção inventiva, Justiceiras vem com tantas mudanças que se torna um filme especial. E não são só mudanças em sua trama, que toma novos rumos o tempo todo; mas o fato de pegar um subgênero, o modo como todas as histórias são contadas há tanto tempo e aí encontrar um lugar para outras definições, motivações e existências, são velhos espaços tomados por outras vozes. Robinson nem está inventando nada, mas está fazendo diferente e de um jeito bem mais interessante. 

Um grande momento
A Liga dos Homes Hétero Cis Que se Identificam com as Mulheres

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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