Crítica | Festival

Karaoke

Aquela chacoalhada

(Karaoke, ISR, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Moshe Rosenthal
  • Roteiro: Moshe Rosenthal
  • Elenco: Sasson Gabay, Rita Shukrun, Lior Ashkenazi, Arie Tcherner, Kobi Farag, Alma Dishy, Timor Cohen, Keren Tzur, Talin Abu Hanna, Ofri Fox
  • Duração: 100 minutos

“O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções.”

Clarice Lispector

Quando chegamos na casa de Meir e Tova pela primeira vez, depois de seus quase 50 anos de casados, é difícil enxergar o que os fez ficarem juntos e chegarem até ali. O cansaço e aquela ferrugem que vêm com os anos já transformaram a interação, já não há mais paciência e nem interesse, pelo contrário, há sarcasmo e deboche. Mais do que a relação, os indivíduos estão abalados. E é Meir quem mais sente, pelo menos aqui, no recorte que nos é apresentado por Moshe Rosenthal em Karaoke.

Com a autoestima abalada, aquele homem não se sente validado, querido e nem desejado. A chegada de um novo vizinho, descolado e solto na vida, muda o seu modo de perceber a vida e o seu presente, o leva a buscar a mudança. É muito interessante como essa transformação vai se estabelecendo, primeiro como uma busca por atenção, depois como uma percepção da prórpria realidade, uma definição da própria presença no mundo.

Apoie o Cenas

Rosenthal é conhecido por sua filmografia LGBTQIA+, já tendo sido premiado por seus curtas Shabaton e One Way Back, e aqui provoca a heteronormatividade como uma forma de questionar a estrutura arcaica que domina a sociedade. Ao mesmo tempo, imperceptivelmente, a mantém. Karaoke é um filme estritamente masculino, o que não teria qualquer problema se feito de outra maneira, e o diretor olha Tova com olhos enviesados e a desenha com tintas nada agradáveis.

O ato de vilanizá-la para nos conectar ainda mais a Meir funciona, mas a coloca num lugar de negatividade que já não é mais cabido, que minimiza todo peso da passagem do tempo e a exclusão social sofrida pelas mulheres — que inclusive o filme aborda posteriormente — de maneira leviana. Resquícios de uma estrutura patriarcal que o filme combate quando brinca com a necessidade de associar a juventude para ser feliz, ou com a valorização de preceitos sociais. É contraditório.

Apesar disso, e a despeito desse grave deslize de percurso, o modo como ele consegue nos inserir na trama e nos fazer entender o momento daquele casal é inegável. Desde o primeiro jantar, criamos conexões reais com aquelas personagens, em especial com Meir, numa atuação inspirada de Sasson Gabay (A Banda e O Julgamento de Viviane Amsalem) e queremos estar com eles enquanto vão se descobrindo e se transformando.

E é essa transformação que conta, é no sacudir da vida que o longa se interessa. No vivenciar toda uma diferença do que havia para o que virá. Itzik, o novo vizinho, dá a Meir a chance de falar, se expressar, ser, e faz com que ele se sinta confortável para pegar o microfone do karaokê que tem em sua sala — daí vem o nome do filme — e cantar.

Há muitos bons momentos em Karaoke e muitas formas de identificar aquilo que já conhecemos, vemos perto de nós e, de certa forma, ter um vislumbre daquilo que virá por aí. É o mesmo mundo, independemente de que língua se fale, que paisagem se veja da varanda e realidade que se viva. O que muda, no final das contas, são as oportunidades de transformação que surgem e se vamos ou não aproveitá-las.

Um grande momento
“O ontem não importa”

[Tribeca Film Festival 2022]

Curte as coberturas do Cenas? Apoie o site!

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo