Crítica | Festival

O Visitante

Estigma é estigma

(El visitante, BOL, URU, 2021)
  • Gênero: Drama
  • Direção: Martín Boulocq
  • Roteiro: Martín Boulocq
  • Elenco: Enrique Aráoz, César Troncoso, Mirella Pascual, Svet Ailyn Mena, Romel Vargas, Teresa Gutiérrez
  • Duração: 85 minutos

Em uma conversa no começo de O Visitante (El visitante) descobrimos que Humberto nunca foi o homem que querem dizer que ele deixou de ser. Ele é alguém que cometeu um erro e está voltando depois de pagar por ele, mas está marcado para sempre. “Estigma é estigma” diz o seu amigo e não só se entende aquilo que ele quer dizer como a frase resume o filme, dirigido pelo boliviano Martín Boulocq.

É na simplicidade das imagens, no tempo dado para que observemos o deslocamento daquele homem pela cidade em busca de si mesmo e do reatar suas relações, em especial com a filha, e da crueza dos diálogos, que o longa vai estabelecendo a dicotomias entre o presente e o passado, entre os traumas do passado e a esperança em um novo futuro. Há construções visuais explícitas, como aquela que contrapõe a cena em que o passado é visto de costas emoldurado por uma árvore, que volta e meia se repete, e o presente, envolto em coloridos brinquedos, ou mesmo reformulações não gráficas onde a eternidade de clássicos cria a aproximação com o novo.

Por trás de tudo, a religião surge como um elemento que rotula e determina destinos, cheia de julgamentos e hipocrisia. Os avós maternos que agora criam Aleida, a filha de Humberto, fogem do passado e fecham os olhos para o que querem, mas os deixam aberto para condenar o ex-genro e assim deixá-lo longe. Ressalta-se que Carlos, figura constante em tela é pastor neopentecostal e, por isso, se sente ainda mais validado. A presença religiosa, porém, transcende a relação, em um país notoriamente cristão, onde a igreja evangélica, assim como em toda a América Latina ocupa cada vez mais espaço. Em velhas e novas formas, pena, culpa, medo e submissão servem como método de controle.

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O cantor de ópera Enrique Araoz, em sua estreia como ator, encabeça bem a película, que também conta com a excelente atuação de César Troncoso (O Banheiro do Papa) como o sogro religioso e Mirella Pascual (O Silêncio do Céu) como sua esposa. 

O Visitante destaca a força e o poder da religião e a indica como uma das grandes responsáveis pela determinação e estigmatização. Ao estabelecer a relação com ela dos personagens, sua importância para cada um e a briga que vai se estabelecendo pela imposição da influência em outras vidas, cria tensões e possibilidades de leitura. Ele trata de maneira interessante do modo como dogmas e crenças estão estruturalmente inseridos na sociedade, por mais que não se professe a fé, e, ao mesmo tempo, comenta essa proliferação do evengelismo neopentecostal e sua divulgação cada vez mais facilidtada.

No meio da grandeza do etéreo e diminuído pelo sobrenatural, o ser humano, em sua realidade, resta subjugado, sujeito daquilo que para ele determinam. E não por aqueles que não se veem, mas os que são palpáveis e estão bem diante dos olhos. Como diz uma outra conversa de O Visitante: “quem escreveu a ‘Bíblia’ foi o homem”. É sobre isso.

Um grande momento
Preparando o jantar

[Tribeca Film Festival 2022]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Critics Choice Association, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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