Crítica | Festival

Lua Azul

Até onde podemos alcançar

(Crai nou, ROM, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Alina Grigore
  • Roteiro: Alina Grigore
  • Elenco: Ioana Chitu, Mircea Postelnicu, Mircea Silaghi, Vlad Ivanov, Ioana Ilinca Neacsu, Ioana Flora, Robi Urs
  • Duração: 85 minutos

Irina vive em constante apreensão em sua família disfuncional. Não há liberdade em casa, não há um mínimo lugar pra onde possa se refugiar, seus primos e tios controlam a sua vida e a de suas irmãs com uma lupa, e não há saída para elas que não cuidar do negócio coletivo rural. A protagonista de Lua Azul, no entanto, não deseja estagnar-se, continuar na segurança de uma vida pré-programada; Irina quer fazer faculdade em Bucareste, longe dos domínios familiares, longe da marcação cerrada que determina seus passos e suas decisões. Na encruzilhada onde vive, até alguma espécie de horror momentâneo significa uma saída.

Alina Grigore estreia na direção e de cara já ganhou a Concha de Ouro no Festival de San Sebastian, o que volta a atestar a Romênia como celeiro de nomes para serem observados com afinco. Seu olhar para esse microuniverso é tão detalhado a ponto de perdermos o contraste da visão, borrando a narrativa e construindo uma atmosfera sufocante, onde as imagens vão perdendo a importância e dando vazão a uma narrativa salteada de eventos, de ideias; como aproximar demais o rosto de um objeto e vê-lo perder suas linhas gerais, esse trabalho se comunica com a tradição da Romênia em não traduzir seus roteiros de maneira clássica.

Esse borrão é assumido imageticamente pela produção em vários momentos, quando não vemos uma determinada surra, quando um rosto importante é cortado do quadro, ou no crescente plano final, que impulsiona uma jornada errática que precisa ser transformada em eventuais acertos. Acompanhar os caminhos de Irina em busca de um lugar longe dos domínios de seus entes não é tarefa fácil, porque Grigore decide que somente pontos-chaves precisam ser desvendados, então seguimos com essa sensação de descoberta constante, onde o passado impresso ali obviamente define o presente, mas tal caminho será compreendido pelos espasmos jogados na cara do espectador.

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O desenrolar dessa personagem principal não comporta especificamente um olhar romeno para a sociedade, mas toda um recorte mundial para a dificuldade de crescer, tanto pra quem parte quanto para quem fica. É um processo doloroso que precisa contar com uma dose cavalar de coragem mútua, alimentada por anos e condicionada à realização. O envolvimento com aquela ideia de organização familiar nem sempre consegue captar empatia; trata-se de uma leitura de eventos que prioriza a irritação, por seu caráter invasivo. Mas é exatamente essa a intenção do longa, trabalhar a própria ansiedade por fuga e examinar nosso próprio olhar para os dois lados da situação. Assimilado, o longa oferece então contrapontos ao que imaginamos ser a decisão do oposto, como em um jogo com um “advogado do diabo”.

Essas elipses de informação, esse assentamento que reverte uma normalidade padrão da estrutura cinematográfica, produz um estranhamento positivo, por não termos acesso à todos os pontos de conflito. A própria excentricidade das relações humanas ali dispostas, com pitadas de incesto e autoritarismo em contexto de sutil opressão (leia-se, sutil porém claramente percebida), classifica Lua Azul como um conto de quimeras, onde observamos uma ordem de sonhos que não conseguem ser realizados, em eterna configuração de negação. Irina é uma jovem mulher que decide pelo erro, muitas vezes, porque ele significa também sua capacidade decisória em um universo em que é diariamente tolhida. Quando o erro se mostra ao alcance, realizá-lo, além de denominar uma ruptura com seus laços, também apresenta uma figura feminina que apresenta uma escolha deliberada sua, e não dos muitos terceiros que a orbitam.

Ao contrário do que erroneamente possa ser analisado, o desfecho de Lua Azul não representa cerceamento narrativo em cima do que é assentado até então, mas uma leitura psicológica que cabe no desenho daqueles personagens, incluindo a protagonista. Que a câmera de Grigore tire o foque de sua última ação, demonstra seu interesse em criar uma assinatura ao projeto, e faz sentido no que o roteiro apresentou até então. Nossos sonhos sempre estarão aptos a realização, enquanto houver ímpeto para tal; inalcançável é uma palavra forte para definir sentimentos à flor da pele, que podem sempre serem evadidos de nós, a qualquer momento.

Um grande momento
O encontro de Irina com o homem da noite passada

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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