Crítica | Festival

Ludi

Começar de novo

(Ludi, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Edson Jean
  • Roteiro: Edson Jean, Joshua Jean-Baptiste
  • Elenco: Shein Mompremier, Alan Myles Heyman, Madelin Marchant, Success St. Fleur Jr., Kerline Alce, Plus Pierre, Patrice DeGraff-Arenas, Farah Larrieux
  • Duração: 80 minutos

O sonho de uma vida melhor. Ludi trabalha, trabalha, trabalha e trabalha mais um pouco para chegar lá. O dinheiro nunca dá para o pouco mais que é aquele extra que ela precisa, no caso um vestido para a sobrinha, de quem tem notícias por uma fita cassete que recebe vez por outra. É assim que se comunica com a família. O retrato que vemos no filme que leva seu nome é muito dela, mas é o de quantas outras pessoas que estão ao redor do mundo, em situações semelhantes, mesmo que sem gravadores, mesmo que não enfermeiras, mesmo que não familiares de haitianos, tentando se virar para conseguir o mínimo para ter aquilo que querem?

O longa de Edson Jean contrasta a luminosidade do subúrbio com a luz artificial do hospital, onde a protagonista passa a maior parte do tempo. Lá conhecemos seu cansaço — marcado inclusive por efeitos de câmera — e lá, entre o marasmo das cores e espaços repetidos, estamos limitados ao seu cotidiano. Quando não está se arrumando para o trabalho está percorrendo quartos e entre pausas para o lanche. O roteiro, uma parceria entre o diretor e Joshua Jean-Baptiste, se assume bem simples: há um objetivo e os obstáculos para alcançá-lo.

Há aqui algo de interessante, quando se contrasta o silêncio e a imobilidade dos pacientes idosos cuidados pela protagonista com o “barulho” que a cerca. Porém, sobra uma falta de conhecimento sobre o feminino neste ponto. Talvez o fato de serem dois homens escrevendo sobre a experiência e o fato de Ludi ser uma mulher, e uma mulher negra, traga uma histeria incômoda, por exemplo, à colega de casa, e dê tanto tempo ao assédio, coisas que demonstram uma falta de sensibilidade e mesmo de desnecessidade de prolongamento de certas situações.

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Porém, se o equívoco está presente, assim como a facilidade por trabalhar com um roteiro que não tenta hora nenhuma ser muito elaborado, também tem uma habilidade em lidar com a transformação. Quando Ludi encontra outra realidade, por um acaso do destino, sua realidade se altera. O filme vai junto com ela e o universo passa a ser o ambiente restrito de um lugar que a protagonista desconhece, com um paciente que nada tem de imóvel ou calado. Ele não só fala, como reage (atirando coisas nada agradáveis).

A longa noite que Ludi e George passam juntos é um daqueles momentos do cinema que ficam. Shein Mompremier, que já vinha mostrando muita habilidade com um filme inteiro baseado em uma atuação de detalhes, aqui tem espaço para ir além, e não faz feio. Alan Myles Heyman está muito bem como o idoso acamado e amargo que, apesar das limitações físicas, não tem qualquer motivo para não falar aquilo que pensa. Embora haja alguma previsibilidade no contexto geral, o que importa é o que está ali e o significado do encontro é grande demais para ser ignorado.

O filme se abre e consegue desdobrar sua narrativa. O vestido ainda está ali, mas ele se torna um detalhe da vida e o que passa a importar é o poder de Ludi. O jeito com que ela “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” é contagiante, porque o seu viver é potente, apesar de qualquer equívoco, abalo ou outra coisa que aconteça. Sempre há algo para encontrar e descobrir sobre si mesma em algum lugar e que vai dar força para recomeçar.

Um grande momento
“Não vai dar”.

[SXSW 2021 – Film Festival]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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