Crítica | Cinema

Madre

Novas camadas de maternidade

(Madre, ESP, FRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Rodrigo Sorogoyen
  • Roteiro: Rodrigo Sorogoyen, Isabel Peña
  • Elenco: Marta Nieto, Jules Porier, Alex Brendemühl, Anne Consigny, Frédéric Pierrot
  • Duração: 128 minutos

Poucas aberturas recentes do cinemas podem se orgulhar de fazer o espectador passar por tantos lados, com tantas camadas, ainda sendo um plano sequência de complexidade emocional muito mais do que estética (embora sim tenha todo um desvelo no quadro), e isso tudo reside em ‘Madre’, que estreia no cinema de maneira impactante, com essa cena que começa de maneira naturalista e frugal, ganha dransticidade aos poucos, e cujos contornos se enviezam. Do enquadramento 1 até o plano que fecha esses primeiros 15 minutos, seremos apresentados ao mote da produção e arremessados com força na direção de polos cada vez mais agudos, reforçando o horror. E não qualquer horror, mas aquele mais palpável, cuja presença social é mais provável que um zumbi ou uma assombração.

O diretor Rodrigo Sorogoyen já tinha sido indicado ao Oscar pelo curta metragem que é a base do seu longa, uma produção espanhola muito elogiada e premiada. O escopo que ele consegue para a versão comprida é não apenas maior em duração, mas muito mais complexa no lugar onde coloca a protagonista, sem parecer esticar a ideia, muito pelo contrário. Aqui todas as ideias parecem convergir com absoluta elegância e sua proposta de investigar o horror passado, suas ambivalentes consequências, e o estado das coisas em constante mutação parece ser o quadro onde o projeto sempre esteve. A ideia para o curta provavelmente teve como propósito viabilizar sua totalidade, e o filme faz essa transição com incrível competência.

Como um produto independente, ‘Madre’ passeia por lugares inimagináveis para quem já é versado em clichês ou expectativas que o cinema nos incumbe. No fundo, há uma quebra de olhar para as situações colocadas à mesa, porque o tom – que parte de um compreensível desespero às raias da histeria – muda gradativamente a cada novo bloco de eventos, porque suas motivações passam a ser outras a cada novo rearranjo narrativo. Sempre com uma busca pela naturalidade ainda que o esquema em cena seja carregado de elementos de gênero que extrapolem essa mesma opção, a produção persegue valores críveis de relações humanas. Que isso consiga ser mantido a cada nova curva do roteiro é um desafio que o filme cumpre com destreza.

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A impecável condução de Sorogoyen, que além de conferir uniformidade a esse esquema de melodrama cujas camadas vão sendo desvendadas aos poucos, ainda concentra forças em um trabalho cuja estética é tão valorizada como a fotografia de Alex de Pablo. O seu trabalho de valorizar a profundidade de campo de maneira exemplar, além de propor uma reflexão imagética sobre a narrativa, intercalando a forma como Elena é observada, tanto pelo espectador como pelos outros personagens, é um dos vetores do sucesso do filme. Sem rebuscar suas imagens até que a narrativa se empobreça diante da direção, mas contribuindo para a discussão do roteiro através das imagens, somos apresentados a essa personagem-farol.

Todo esse comprometimento com a produção iria facilmente para escanteio se não fosse o trabalho de Marta Nieto tão profundo. Da cena inicial cheia de nuances interpretativos que a levam pra tantos lugares diferentes, até a aparente apatia seguinte diante de uma realidade substituta, passando pela confusão mental que pode estar nas entrelinhas a todo momento, seu desempenho complementa o propósito e realça possibilidades de observação pouco explorados na relação mãe e filho, principalmente no caso dela, que vive algo inédito e portanto desconhecido. O filme consegue, sem vulgarizar suas ideias, construir uma ponte para que a maternidade não seja santificada, e sim humanizada, em todos as suas falhas e ausências.

Esse lugar da maternidade sem idealização, possível em suas imperfeições, e compreendendo o lugar onde tentativas, erros e novas chances são possíveis e merecem ser também contempladas como um campo familiar é mais um dos acertos de ‘Madre’, um filme cuja sinuosidade permite inclusive visualizar também as polêmicas em torno das relações pouco convencionais que podem surgir em uma seara onde só se permite uma categorização. Sorogoyen abre o incômodo leque onde tudo é permitido entre mãe e filho, dos erros mais desconcertantes até os acertos mais inesperados.

Um grande momento

A sequência inicial


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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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