Crítica | Festival

Lima Barreto – Ao Terceiro Dia

À espera da segunda metade

(Lima Barreto - Ao Terceiro Dia, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Luiz Antônio Pilar
  • Roteiro: Luiz Antônio Pilar, Luís Alberto de Abreu
  • Elenco: Luis Miranda Sidnei Santiago Kuanza, Orã Figueiredo, Maria Clara Vicente, Eduardo Silva, Camilo Belivacqua, Cristiane Amorim, Fernando Santana, Gisele Fróes, Ronny Kriwat
  • Duração: 104 minutos

A partir da metade de ‘Lima Barreto ao Terceiro Dia’, sua narrativa começa a ficar mais clara, seu jogo cênico passa a fazer sentido e encontrar ressonância cinematográfica, e o filme se justifica então, para além das cansadas intenções de biografar de maneira rasa um personagem maior da nossa História. Vindo de um recente desastre como ‘Pixinguinha’, essa adaptação da peça homônima de Luis Alberto de Abreu constrói um caminho tortuoso para abarcar inúmeras possibilidades, mas apara essas ideias aos poucos, e consegue se desvencilhar de uma saída vacilante rumo a uma discussão muito propícia a respeito da responsabilidade de cada um com a própria autoralidade.

Egresso dos documentários e tendo dirigido inúmeras telenovelas (incluindo o sucesso ‘Sinhá Moça’), Luiz Antônio Pilar estreia em longas de ficção em terreno de própria admiração. Talvez essa ligação com o personagem, seu caminho, suas implicações na sociedade e seu papel na História da literatura brasileira, tenham impedido de observar que ele não precisaria necessariamente remontar ‘Policarpo Quaresma’ em cena, nem transformá-lo em ponto de apoio da trajetória de Barreto, que é uma figura independente de sua obra. Com um ponto de partida envolvente, o longa escorrega na ideia de contrapor o autor e seu herói, e mais pra frente fica evidente sua intenção.

Para atingir a ideia central, que é dar voz a Policarpo e a dois tempos exatos de Barreto, não era necessário que acompanhássemos tão profundamente e de maneira tão paralela a narrativa de sua célebre obra, que Paulo Thiago já tinha adaptado – com um Paulo José inesquecível, diga-se. Era apenas uma questão de pontuar suas ideias, mas o filme trata de recontar sua passagem, incluindo os personagens secundários que ficam à deriva de função por aqui. A partir de próximo a metade da produção, os afluentes se encontram e o filme cresce para o lugar que remava, o da reflexão sobre as ideias que fazemos a nosso próprio respeito.

Apoie o Cenas

Quando confronta os personagens de Luis Miranda e Sidney Santiago, dois lados de um mesmo homem, com sonhos e presentes muito opostos, aí sim o roteiro ganha camadas de discussão profundas, ainda intercalando a criação desse homem em meio ao aprofundamento de ideias. Seus encontros são muito bem servidos de análises filosóficas e psicológicas a respeito do nosso lugar no mundo, sobre a perenidade do que fazemos, sobre as possíveis mudanças de rumo em cada nova etapa, tudo com muita qualidade textual e uma entrega dos dois atores que enriquecem a experiência, dando facetas díspares a dois homens que são o mesmo.

Enquanto um personagem deveras irritante ocupa o espaço (o amigo do jovem Barreto, uma criação das mais tristes), além da fatia gorda que temos de encontrar nas peripécias de Policarpo antes do enfrentamento com seu criador, ‘Lima Barreto ao Terceiro Dia’ cresce ao abrir mão de todo esse enchimento para se ater ao que é mais precioso ao seu universo. Com isso, ele também debate nas entrelinhas a importância que o próprio escritor tinha em sua época e a forma como sua obra foi sendo desconstruída ao longo do tempo, para adquirir um status hoje condizente ao sua material e ampliar nossa impressão em como os feitos de cada um não refletem o espírito do seu tempo.

A luz de Daniel Leite segue um protocolo de alucinação, sempre. Casando com a proposta de colocar o Barreto mais velho em situação de delírio, e o mais novo em situação de sonho, essas duas vertentes estão sempre dialogando em suas leituras, enquanto o olhar para Policarpo é absolutamente naturalista. Com isso, é mais um detalhe de como realmente ‘Lima Barreto ao Terceiro Dia’ tem aparentes dois tomos separados, que quando unidos, fazem valer a espera até então.

Um grande momento

Na cela 


O crítico viajou ao 25° Cine PE – Festival Audiovisual a convite do evento.

Curte as coberturas do Cenas? Apoie o site!

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo