Crítica | Cinema

Vigaristas em Hollywood

Nem tudo está perdido

(The Comeback Trail, EUA, GBR, 2020)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: George Gallo
  • Roteiro: George Gallo, Josh Posner
  • Elenco: Robert De Niro, Tommy Lee Jones, Morgan Freeman, Zach Braff, Emile Hirsch, Sheryl Lee Ralph, Kate Katzman, Eddie Griffin
  • Duração: 104 minutos

É muito fácil identificar George Gallo se sentindo perseguido, injustiçado e preterido na máquina da indústria cinematográfica ao assumir levar ‘Vigaristas em Hollywood’ adiante, filme sobre pobres diabos (alguns, cujo talento nunca foi descoberto) que decidem fazer um filme – nada de novo sob o sol. Se trata, no entanto, de uma produção desse pau pra toda obra atual, mas que é não um pau de cedro ou mogno, mas um pedaço de compensado cheio de cupim. Fazendo crescer seu currículo no imdb na velocidade da luz e contando com o conhecimento necessário a convencer grandes nomes a topar suas empreitadas, seu novo filme é sobre si, e dessa ironia podemos sim tirar grandes lições.

Gallo tem um passado como roteirista de produções classe A, tendo escrito ‘Fuga à Meia Noite’ nos anos 80 e o primeiro ‘Bad Boys’, mas como diretor ele nunca teve um momento de brilho, pelo contrário, vem piorando vertiginosamente a cada nova produção, e recentemente filmes como ‘A Rosa Venenosa‘ e ‘Conquista‘ já atestavam isso. Logo, não é necessariamente uma surpresa constatar como ele parece não fazer ideia de sua própria narrativa; como a cena do filme dentro do filme foi captada de trocentos ângulos diferentes, se nas cenas só aparecem uma? Coisas bem básicas como essa se acumulam, e o filme não se justifica imageticamente, sempre trazendo novos planos mais injustificados que outros. E nem estou falando de coisas que só um especialista perceberia não… por exemplo: um plano de dentro de um monitor de televisão???, e que não filma o rosto dos atores que o assistem???

Vigaristas em Hollywood
Divulgação

A favor dele, dessa vez, tem sua inspiração na escrita. Óbvio, não se trata de algo que daria orgulho a David Mamet, mas o produto do roteirista Gallo precisaria de um diretor melhor que o próprio Gallo. É material verdadeiramente divertido, com alguma sagacidade, um tempero servido pela sua própria melancolia em não ter encontrado espaço para devanear à vontade, algum produtor desavisado que bancasse prováveis delírios seus, e aí ele construiu essa visão engraçada de alguém que, no fundo, é ele mesmo interpretado por Robert DeNiro – o que já limpa a sua barra consideravelmente. Saber que ao menos ele entende a própria mediocridade, como dificilmente chegará mais longe do que esse filme mesmo apresenta, é suficiente por nutrir algum carinho por esse projeto em particular.

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Não podemos, no entanto, fingir que a produção não é claramente modesta, com parcos recursos técnicos, mas que tudo poderia ser amenizado por um realizador de verdade, que contornasse com criatividade as ausências. Gallo só tem as ideias, mas não a condição para fazê-las, então somos lançados em um modelo de planos repetitivo e ineficaz para contar sua promissora história, sempre inferiorizando um material cujo potencial era evidente. Quando é recortado de ‘Vigaristas em Hollywood’ toda a matéria narrativa, seus diálogos e seu elenco, ou seja, ao olhar para o esqueleto técnico e imagético produzido, quase nada sobra pra apontar de positivo. Tudo o que o filme tem de oferecer de melhor não é proveniente do que a direção proporciona.

Vigaristas em Hollywood
Divulgação

Mais do que o próprio texto, Gallo tem quem dizê-lo, e DeNiro não está sozinho. Tommy Lee Jones, Morgan Freeman, Emile Hirsch e Zach Braff estão todos empenhados em conseguir lustrar essa panela velha onde se meteram. E a dupla formada pelo vencedor do Oscar por ‘Touro Indomável’ e o astro da série ‘Scrubs’ tem química suficiente pra garantir alguns episódios consigo. Juntos, DeNiro e Braff conseguem transmitir não apenas o desespero e a urgência de sua situação, mas o afeto entre si e o verdadeiro amor pela sétima arte, independente de que lugar estão na pirâmide do cinema. DeNiro já interpretou antes profissionais da indústria, mas aqui está especialmente raivoso e descontrolado, dando o ritmo de uma produção que segue nas costas dele e da capacidade de seus companheiros em desvencilhar-se de um diretor com menos talento que eles.

George Gallo, na ânsia de tentar reproduzir sua própria atmosfera em cena, acaba dotando ‘Vigaristas em Hollywood’ dos desacertos que já fazem parte da sua própria realidade. Com os adicionais de mafiosos e tentativas de homicídio, seu filme não fica muito longe do que é acordar todos os dias sendo Gallo. Às vezes, e aqui no caso, ele consegue um roteiro que poderia estar em mãos mais hábeis, mas assim como em sua obra, sua teimosia insiste em tentar mostrar ao mundo um cineasta que ele não é. Que continue então escrevendo bons roteiros como esse e contando com a ajuda de amigos do quilate desses aqui. Se não salvam o dia por completo, ao menos conseguem fazer com que olhemos pro copo meio cheio.

Um grande momento
Contratando um(a) cineasta

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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