Crítica | Streaming

Mamãe

Ninho vazio, paciência idem

(Umma, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Iris K. Shim
  • Roteiro: Iris K. Shim
  • Elenco: Sandra Oh, Fivel Stewart, Dermot Mulroney, Odeya Rush, MeeWha Alana Lee, Tom Yi.
  • Duração: 83 minutos

A síndrome do ninho vazio rende estofo para o cinema há muitos anos, mas parece que de uns tempos pra cá isso ainda se intensificou ainda mais. São pais que não, na iminência da perda de seus filhos para o mundo, caem em profunda depressão, perdendo a alegria de viver e dando conta de como não devemos nos dedicar integralmente ao outro, mesmo que o outro em questão seja nosso filho. Mamãe passou nos cinemas americanos há pouco tempo e chega direto em VoD no Brasil, pulando a exibição nas salas comerciais, mesmo que o circuito nacional absorva muitíssimo bem o cinema de horror. Então já deixei a dica, sim, o acometimento dessa situação no filme é levado para uma dose de alegoria gráfica, aumentada pela cultura asiática, que é a base emocional do longa. 

O filme é a estreia em formato longo da jovem Iris K. Shim na direção, onde ela difunde a cultura coreana não apenas do luto, mas também de relações patriarcais e como essa troca familiar é ainda mais submissa e dependente entre os asiáticos. A mão da diretora é cheia de sutileza para apresentar seus signos visuais, tal como deve ser mesmo dentro de um gênero tão adepto da histeria. Mesmo com a duração tão curta (menos de 1 h e 20), o filme se apropria com parcimônia das imagens iconográficas do terror, antes nos abrindo com igual sutileza os intercursos de família ao longo das últimas décadas. O resultado nunca deixa de envolver e mover o espectador rumo a essa premissa tão recentemente contada, mas que aqui ganha contornos ainda mais simbólicos por conta da distância cultural. 

Mamãe brinca com aquele chavão máximo da vida real, onde os filhos acabarão por se tornar novas versões dos seus pais, por mais dolorosa que tenha sido essa relação. O moto perpétuo doentio de reprisar situações onde você mesmo foi o principal prejudicado está em cena de maneira refletora, onde desde o início fica muito claro os rumos da narrativa. Amanda e Chris vivem em uma simbiótica troca que em tudo remete ao que a protagonista viveu anos atrás com a própria mãe, com resultados desastrosos. Ainda assim, não consegue fugir da repetição de eventos, ainda que influenciada pelos fantasmas de um passado que é mais do que uma metáfora, mas também não deixa de sê-lo. Em contraponto, Chris se prova filha de quem é, igualmente enfrentando o presente para construir o futuro. 

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Mamãe (2022)
Sony Pictures

Embora esteja tudo aparentemente no lugar, a sensação de que já vimos tudo aquilo antes é inevitável. Não apenas a narrativa te passa esse déjà-vu, mas a própria condução de Shim prima pela construção, mas não por tornar aquilo especial, ou ao menos sensível. É uma boa ideia, seu desenvolvimento é acertado, tudo é traduzido de maneira orgânica e sem encher qualquer tipo de linguiça, porém a sensação é a de que vários longas foram vistos para que a confecção geral saísse com referências bacanas. Mas tem caminhos até por produções esquecíveis, como se a honestidade fosse suficiente para que o tanto de reaproveitamento não fosse levado em conta. Além disso, a sensação é de enfado por conta de que tudo está devidamente no lugar esperado. 

No centro das atenções, Sandra Oh, a estrela de Sideways, Grey’s Anatomy e Killing Eve nunca decepciona, e aqui não faz diferente. Sua pré-disposição ao delírio que a produção adquire lá pelas tantas, o espaço anterior realizado com cuidado natural, a forma como acredita de maneira integral no que está acontecendo e seu talento já demonstrado para qualquer levada, eleva um material que poderia não ter salvação alguma. Mamãe deve muito a Oh, uma atriz de recursos avantajados, mas que raramente consegue um lugar de destaque, ainda mais centralizada como aqui. Com pouquíssimos personagens, o longa é uma oportunidade excepcional para a atriz, que a aproveita com gosto, dando ao filme uma relevância que sua presença por si só já lustra todo o resto em cena. 

Um grande momento
O enterro da mãe 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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