Série em Cenas

Margô Está em Apuros

Sobrevivendo ao abandono legitimado

Logo de cara, Margô Está em Apuros deixa claro que está menos interessada em contar uma história de superação do que em observar uma mulher sendo lentamente esmagada pela lógica da sobrevivência em uma sociedade patriarcal. Fraldas, aluguel, leite, exaustão, trabalho, olhares de julgamento e homens desaparecendo no instante em que responsabilidade são realidade na tela e também fora dela. Dentre tudo que se acumula em cima de Margô como uma avalanche burocrática, a maternidade solo surge ali quase como uma condição de clandestinidade social. A personagem atravessa ambientes onde claramente não existe espaço pensado para ela e nem para tantas outras.

Alternando a forma da discussão, de maneira sutil, a série entende que o abandono paterno raramente acontece de forma explosiva. Ele costuma vir vestido de normalidade. Assim como seu pai fez com sua mãe, Mark, o professor que engravida Margô, não abandona apenas uma relação afetiva. Ele abandona um corpo atravessado por consequências físicas, financeiras e emocionais que passam a existir apenas para ela. Margô Está em Apuros trata de uma ferida social que poucas vezes é discutida frontalmente: diferente das mulheres, homens possuem o direito tácito de abortar seus filhos em vida. Não literalmente, óbvio, mas através da ausência legitimada, da deserção emocional transformada em hábito cultural, da capacidade masculina de continuar vivendo como indivíduo enquanto mulheres são obrigadas a virar função.

Isso não aparece em um discurso rígido e pesado. David E. Kelley faz a trama respirar através das relações. E elas funcionam justamente porque parecem improváveis demais para caber numa estrutura tradicional de família disfuncional simpática. Há atrito, ressentimento, vergonha, humor constrangedor e um afeto torto que vai se reorganizando aos poucos.

Elle Fanning faz um trabalho impressionante. A atriz constrói alguém permanentemente cansada, mas ainda espirituosa, inteligente, irônica e até vaidosa em certos momentos. Existe uma percepção muito fina da humilhação social da personagem, especialmente quando a série acompanha sua entrada no OnlyFans como uma tentativa desesperada de criar alguma autonomia econômica dentro de um sistema que simplesmente não oferece alternativas reais.

Nick Offerman também encontra talvez uma das melhores performances da carreira recente. Sem que seu Jinx descambe para a caricatura de ex-pai ausente tentando redenção tardia, Offerman trabalha o personagem com uma melancolia meio derrotada, como alguém que percebe tarde demais o tamanho do vazio que deixou para trás. A dinâmica entre ele e a filha funciona porque a série nunca tenta apagar o dano causado pela ausência. O afeto nasce justamente no desconforto.

Michelle Pfeiffer faz algo parecido com Shyanne. Sua personagem parece viver num equilíbrio instável entre dureza e desespero, como se enxergasse na filha uma repetição dolorosa da própria trajetória. E talvez seja aí que Margô Está em Apuros encontre sua camada mais amarga: a maternidade aparece mesmo quase como herança traumática transmitida entre mulheres que precisaram sobreviver sem rede de proteção.

Mesmo trabalhando temas pesados, a série mantém um ritmo surpreendentemente leve. O humor nasce da convivência, das personalidades incompatíveis tentando ocupar o mesmo espaço, das soluções absurdas que essas pessoas encontram para seguir funcionando minimamente. Há uma química coletiva rara ali. A casa de Margô vira uma espécie de ecossistema improvisado de fracassados emocionais tentando impedir que tudo desmorone completamente.

E talvez por isso a série funcione tão bem. Por entender que vínculos humanos nem sempre surgem das pessoas certas. Às vezes eles aparecem entre indivíduos quebrados, imaturos, irresponsáveis e profundamente diferentes, mas ainda assim capazes de produzir cuidado. Margô Está em Apuros encontra uma beleza muito particular justamente dentro desse caos meio desesperado, meio afetuoso, onde continuar vivo já parece uma pequena vitória diária.

O melhor episódio
T01E06: Grudge Match

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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