CinePECrítica | Outras metragens

Marias

(Marias, BRA, ano)
Documentário
Direção: Yasmim Dias
Roteiro: Yasmim Dias
Duração: 18 min.

Há validade na intenção de Marias. O tema de que trata é urgente e necessário. A violência contra a mulher é uma realidade que precisa ser conhecida e combatida. Ao contar a história de sua mãe e a de outras mulheres vítimas de abuso, Yasmin Dias busca um meio de expor a violência de gênero em seus três graus: que vai da violência psicológica à física e culmina no feminicídio. A ideia, porém, mesmo que boa, não se apresenta de maneira muito estruturada. O tema é urgente, mas falta apuro ao resultado final.

O filme involuntariamente se determina em três possibilidades narrativas diversas e em excessos de elementos gráficos e sonoros. Depoimentos de vítimas de agressões psicológicas; de uma única vítima de agressão física que não quis se expor e tem sua fala coberta por fotos encenadas por modelos; e da própria diretora contando a história do feminicídio de sua mãe são entrecortados por cartelas que trazem ora estatísticas, ora trechos do processo criminal do assassinato.

A vontade de contar todas essas histórias e traçar uma possível escalada da violência não encontra espaço em um curta-metragem. Reafirmando a irregularidade estética, é como se cada uma das exposições estivesse brigando para encontrar um lugar no conjunto. A óbvia e compreensível falta de distanciamento da diretora aumenta esse desequilíbrio e tira a atenção de seu objetivo principal, que é o de ajudar mulheres a reconhecerem o início da violência.

Há ainda uma interação complicada com programas de televisão que exploram a violência de maneira geral, mas têm um especial interesse na divulgação de crimes bárbaros contra mulheres. A falta de parcimônia na exibição de detalhes violentos de crimes contra as mulheres, reconhecida em entrevista pela diretora, é algo a ser execrado, mas aqui aparece sem essa crítica, apenas como uma narração do evento.

Marias é um curta que traz um tema importante, que precisa ser exposto, debatido e difundido, e tem algum mérito pela coragem na exposição de algo muito pessoal de sua diretora, mas isso não é o bastante. É necessário que forma e conteúdo funcionem de maneira eficaz para que essa mensagem chegue realmente a todos e ali permaneça.

Um Grande Momento:
A coragem por trás da exposição da diretora.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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