Crítica | Streaming

Matilda – O Musical

A imaginação é a saída

(Roald Dahl's Matilda the Musical, EUA, RUN, 2022)
Nota  
  • Gênero: Musical
  • Direção: Matthew Warchus
  • Roteiro: Dennis Kelly
  • Elenco: Alisha Weir, Emma Thompson, Lashana Lynch, Stephen Graham, Andrea Riseborough, Sindhu Vee, Carl Spencer, Lauren Alexandra, Charlie Hodson-Prior, Winter Jarret-Glasspool, Rei Yamauchi Fulker
  • Duração: 115 minutos

Na minha adolescência, não imaginava que aquele Matilda de 1996 se transformaria em um clássico, mas isso aconteceu com aquela geração de infância. Tanto é que a produção se transformou em um musical da Broadway de sucesso, vencedor de prêmios Tony em 2013. A Netflix lançou no dia de Natal sua versão cinematográfica, Matilda – O Musical, mais um título que a Sony vendeu para o streaming; ou seja, essa prática continua mesmo no período pós-pandêmico. Apesar de não ser um gênero dos mais populares, esse musical especificamente tem tudo para conseguir público entre os fãs saudosos da sua versão-base, que já não são mais crianças. O desafio aqui é conquistar o público que desconhece o original e essa mitificação. 

Dennis Kelly é o autor da adaptação teatral da obra de Roald Dahl, e que também assina o roteiro dessa versão para o cinema. A sensibilidade e a mensagem, que estavam presentes nas versões, permanecem aqui – não há de se podar a liberdade de sonhar, de ser quem se quiser ser, e da inocência fulgurante das crianças. O que o poder da imaginação pode fazer é contagioso a ponto de transformar adultos em figuras igualmente esperançosas, vide senhora Honey. Não sabemos se é exatamente a mensagem mais popular em tempos onde crianças são mini-adultos, ligados em vídeo game e extremamente cínicas. Matilda – O Musical é anti-cinismo, como convém à delicadeza proveniente de todo bom musical, com o qual o filme coaduna sentimentos. 

Matilda: O Musical
Dan Smith/Netflix

Matthew Warchus, que dirigiu e foi premiado pela versão para os palcos, está em seu terceiro longa-metragem, o primeiro de longo alcance. O filme é um acerto em sua concepção visual porque aceita a fantasia da protagonista como parte integrante de sua argamassa. Desde a sequência de abertura, uma cena ultra movimentada dentro de uma maternidade, entendemos que o filme absorve de tudo um pouco: a obra de Dahl, o filme dos anos 90 e o musical de 10 anos atrás, sem deixar de lado também alguma dose de personalidade. O filme passeia por várias concepções fantásticas, que passeiam entre o colorido extremo da visão infantil, as cores mais fechadas da imaginação de Matilda, e o cinza extremo de uma escola inspirado em um visual nazifascista. Warchus ajuda Matilda – O Musical a encantar com uma montagem acelerada e um visual cheio de luzes e cores, que nunca soa excessivo, porque o equilíbrio está em todos os lugares aqui.

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Essa é uma ideia que o filme compreende com muita propriedade, e onde uma grande atriz como Emma Thompson aproveita em absoluto. É um mundo dominado por uma ideia de totalitarismo que a senhora Trunchbull representa à exatidão, em atitudes externas e também no cenário que criou para expandir seus domínios. A escola cenário de Matilda – O Musical é um modelo de instituição hitlerista para ninguém duvidar, com direito a sacada para discurso de dominação. Thompson consegue mais uma vez criar um personagem único em sua filmografia que já passeou por outras fábulas anteriormente (Nanny McPhee), emprestando o máximo em carisma e ousadia estética para o filme sem jamais pesar a mão e fazer algo histriônico e caricato. A atriz claramente acredita no que faz, e isso transforma sua composição em um segundo acerto dessa gigante no mesmo ano, após Boa Sorte, Leo Grande.

Matilda: o Musical
Dan Smith/Netflix

Outros três adultos tiveram um ano excepcional e continuam nessa toada graças a Matilda – O Musical. Stephen Graham viu seu O Chef só estrear aqui esse ano, e emendou um personagem extremamente contemporâneo com essa sua releitura para o que Danny DeVito já tinha dado brilho, de maneira muito especial. Andrea Riseborough está sendo indicada a prêmios por seu desempenho em To Leslie e aqui faz par com Graham, mais uma atriz que acerta ao dosar as lentes caricaturais que teria para trabalhar. E assustador de verdade é o trabalho de Lashana Lynch, que brilhou em A Mulher Rei e aqui faz o oposto do longa de Gina Prince Bythewood, uma mulher sonhadora de aparência frágil, em nada parecida com sua Izogie em um dos sucessos de 2022. 

Mas todos os predicados de Matilda – O Musical, sua ambientação extravagante, seu olhar sensível sobre a infância e o desprendimento que devemos ter com a vida adulta enquanto papel social de seriedade, com a seara de boas ações que o filme replica, sempre atribuindo o bullying ao adulto e não à criança, iria por terra se Alisha Weir não funcionasse. A menina é um acontecimento de talento e carisma, e ilumina a cada aparição, desde seu primeiro solo até os derradeiros momentos na nova família que cria. Não é uma adulta no corpo de uma criança, não é uma interpretação emocionada e lacrimosa, não é algo afundado em deslumbre; o ponto é o mais acertado possível, dentro dos excessos de algo como é a proposta aqui. Ela nos ajuda a compreender o poder do que se pode construir com a força dos nossos desejos, e o lugar onde podemos chegar quando tudo que se tem é o sonho.

Um grande momento

Bruce e o bolo

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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