Crítica | Streaming

O Amante de Lady Chatterley

Uma releitura inesperada

(Lady Chatterley's Lover , GBR, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Laure de Clermont-Tonnerre
  • Roteiro: David Magee
  • Elenco: Emma Corrin, Jack O'Connell, Matthew Duckett, Joely Richardson, Faye Marsay, Ella Hunt, Anthony Brophy, Rachel Andrews, Eugene O'Hare
  • Duração: 126 minutos

O lançamento do romance “O Amante de Lady Chatterley”, escrito em 1928 por D. H. Lawrence foi marcado pelo moralismo de sua época. As primeiras edições foram particulares, impressas na Itália e na França. Na Inglaterra, ele só foi publicado 30 anos depois, depois de um processo contra a editora por obscenidade, e chegou a ser proibido em países como Estados Unidos, Canadá e Japão. Era muito para a sociedade da época haver um livro que falava de uma mulher adúltera daquela maneira e com tanto sexo explícito. 

O livro conta a história de Constance, que se casa com o nobre inglês Clifford Chatterley pouco antes dele ir para a Primeira Guerra, onde ele é ferido e volta paralisado da cintura para baixo. Ela e o guarda-caça da propriedade, Oliver Mellors, têm um caso e estabelecem uma relação cheia de tesão. Em paralelo, outras relações se contrapõem à deles, como a de Constance e seu marido; deste com a enfermeira que chega para cuidar dele, ou da ex-exposa de Oliver e seu amante. Tudo isso em uma Inglaterra em ebulição, com mineiros em greve, avanços tecnológicos, e projetos de industrialização pouco preocupados com a natureza.

O Amante de Lady Chatterley
Seamus Ryan/Netflix

Lawrence falava sobre quatro temas: a submissão da mulher ao seu marido, a questão de classes sociais, a industrialização e o sexo (ou o corpo) como parte fundamental de uma relação amorosa. Esta última era a mais importante e, até então, menos tratada, ainda mais de maneira tão marcante. Fato é que toda a celeuma em cima da obra fez com que ela fosse mais procurada, lida e fizesse muito sucesso. O Amante de Lady Chatterley, com seu estudo de relações, tornou-se uma obra-prima de todos os tempos e ganhou várias adaptações. A mais recente, dirigida por Laure de Clermont-Tonnerre, pode ser vista na Netflix.

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Com Emma Corin, que viveu Lady Di em The Crown, no papel de Constance, o longa dá a todo momento pistas de sua intenção. Com pinceladas no contexto, passa pela condição dos mineiros, por reuniões de negócios do Lorde Chatterley e até cita questões sobre preservação, mas se atém ao relacionamento da protagonista com o guarda-caça. Aos que não conhecem o original, a comparação com os outros relacionamentos da trama e até uma maior presença de alguns personagens, como a irmã, Hilda, fazem alguma falta, mas não impedem que o longa encontre sua mensagem.

O Amante de Lady Chatterley
Seamus Ryan/Netflix

Há elegância no modo que Clermont-Tonnerre recria o universo de D. H. Lawrence, inclusive tomando a liberdade de, ao menos em parte, atualizá-lo, fazendo do amante um homem menos bruto e nocivo, dono de uma sensibilidade letrada ausente no original. Essa personalidade alterada não impede que o desenvolvimento da trama seja o mesmo, mas possibilita que as atenções se voltem a outras coisas. Esteticamente, a cada novo plano do diretor de fotografia Benoît Delhomme e figurino floral de Emma Fryer, é muito evidente como a realidade se transforma à medida que a relação de Connie e Oliver se estabelece.

Há uma química entre Corin e Jack O’Connell que valida a conexão entre aquele casal e nos leva ao cerne da questão do autor primeiro. A atenção à mente e ao corpo em uma relação devem ser dadas na mesma medida. Sem generalizações, porque quando se trata de sexualidade não há afirmações possíveis, mas o que dizia Lawrence é que uma relação amorosa não sobrevive só com estímulos a um dos pontos, acaba transformando-se em outra coisa. Clermont-Tonnerre coloca isso em seu Lady Chatterley, porém, e esse porém é bem grande, deixe a desejar justamente nas cenas de sexo, todas muito melhor no papel do que na execução – sabe aquela coisa que é bem antecipada, tem a luz perfeita, o enquadramento adequado, mas nunca parece real ou funciona? Então, é o que acontece aqui.

O Amante de Lady Chatterley
Parisa Taghizadeh/Netflix

Como lidar com um O Amante de Lady Chatterley onde aquilo que é um dos seus elementos mais conhecidos tem a intenção de ser relevante mas não é tão eficiente? A sorte é justamente a diretriz do filme, que já apontava para outras abordagens contextuais. Quando coloca na mão de Oliver um James Joyce ou quando prefere não se aprofundar na relação que se desenvolve entre o baronete e sua enfermeira, Sra. Bolton, Clermont-Tonnerre não quer falar apenas de uma relação que só existe em nível intelectual entre Connie e Clifford. Ela quer falar também da divergência de ideias, ideologias e visões de mundo entre essas duas pessoas.

Há ali um evidente debate acerca da industrialização e a desvalorização da mão de obra; e sobre a fundamental questão de classes, que permeia todo o filme em vários diálogos do casal Chatterley e interações de Clifford com seus subalternos, em um esforço eficiente de vilanização. Há duas cenas muito interessantes para demonstrar a tensão e o caminho que a diretora optou seguir com sua obra: a da engenhoca motorizada que não consegue subir o morro e a fala da cuidadora na cozinha, quando resume a escolha de Constance. Nessa releitura, a libertação tem outros processos. Corpo e mente ainda estão ali como elementos primeiros de uma relação, e há todo um universo a ser explorado nessa interação. 

Um grande momento
O recado de sra. Bolton

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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