Crítica | Festival

Me Chama Que Eu Vou

(Me Chama Que Eu Vou, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Joana Mariani
  • Roteiro: Joana Mariani
  • Duração: 71 minutos
  • Nota:

Dois dias depois de passar um outro documentário musical na sua competição principal, Gramado ataca com novo título de impressão idêntica, e não apenas por ser outro doc musical. A estrutura é parecida, a formatação é bem afinada, o que os separa são seus protagonistas, os artistas em si. Me Chama Que Eu Vou é, claro, um filme que aborda o homem Sidney Magalhães, e o artista Sidney Magal, ambos confundidos e misturados pela montagem. Se os filmes não são necessariamente especiais, pior é a curadoria ter selecionado dois exemplares com tantas coisas em comum, e poucos atrativos cinematográficos aparentes.

Aos poucos, a vida particular de Magal vai se desfiando com mais afinco por Joana Mariani (de Todas as Canções de Amor), que aborda o casamento, a família, a formação de seu núcleo e a ida para Bahia, onde vive até hoje. A partir desse diário familiar que se abre contando uma história de flashes espontâneos, o filme consegue se conectar ao público sinceramente, por sabermos que aquelas pessoas que habitam aquela família são reais, se emocionam, se amam, ou seja, tem uma brasilidade comum naquela vida por trás do tal “amante latino” criado há quase 50 anos.

Me Chama Que Eu Vou, documentário sobre Sidney Magal

Há no entanto aquela formatação de especial de TV, de programa caseiro sem compromisso, de duração diminuta onde nem cabe mais do que o apresentado realmente. Esse caráter engessado do projeto, que captura uma sensibilidade muito palpável, sem as firulas e as afetações que construíram o ídolo, arranham o coração do projeto, que está naquela família que poderia ter sido mais explorada, com o afinco que se detém às imagens de arquivo, às fotos de revistas antigas e aos inúmeros penteados e roupas que mudaram ao longo dos anos em torno do personagem.

Esse predomínio de uma cartilha repetitiva e quadrada sobre como filmar ídolos em suas vidas cotidianas, em paralelos a mostrar suas ascensão e queda (e no caso de Magal, a posterior nova ascensão e redimensionamento para um novo lugar) não faz bem nem ao filme nem a qualquer outro projeto, mas sai ainda mais prejudicado pelo festival ter selecionado O Samba É Primo do Jazz para a mesma competição e Me Chama Que Eu Vou é exemplar ao menos mais sensível e tocante, que, além disso, ainda ensaia uma aproximação menos posada de seu herói.

Me Chama Que Eu Vou

Recém premiada por sua única ficção, Joana tem paixão pelo biografado, isso fica claro pelo envolvimento do núcleo central ao projeto, não apenas de maneira prática (o filho de Magal é um dos produtores do longa), mas principalmente pelos laços afetivos que a família do músico dedicam à câmera e ao processo de imersão de todos no projeto. Esse sentimento exala não apenas para o espectador, mas principalmente entre seus membros, e o filme consegue capturar esses momentos que friccionam os ambientes e seus tipos, conseguindo angariar um senso de intimidade entre si.

O que vale em Me Chama Que Eu Vou, acima de tudo, é a capacidade de seus personagens exporem suas próprias sensibilidades frente às câmeras e torná-las mais que públicas, precisamente revelar um porta retrato sentimental muito compungido acerca de quem os vive. Para além das muitas reviravoltas que o próprio Magal protagonizou em sua carreira, e da sua música vibrante hoje ter criado um status diferente de quando surgiu, é seu amor pela esposa e pelos filhos que saltam aos olhos e permanecerão pós-projeção, reverberando no espectador.

Um grande momento
Graças à sucata

[48º Festival de Gramado]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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