Crítica | Cinema

A Ilha da Fantasia

Bobagem autoconsciente e diferenciada

(Fantasy Island, EUA, 2020)

  • Gênero: Aventura
  • Direção: Jeff Wadlow
  • Roteiro: Jillian Jacobs, Christopher Roach, Jeff Wadlow
  • Elenco: Michael Peña, Maggie Q, Lucy Hale, Austin Stowell, Jimmy O. Yang, Portia Doubleday, Ryan Hansen, Michael Rooker, Parisa Fitz-Henley
  • Duração: 109 minutos
  • Nota:
Bobagem autoconsciente e diferenciada

Uma das principais reclamações dos cinéfilos nos tempos atuais é o excesso de novas abordagens baseadas em marcas registradas já conhecidas: chovem exemplos dos últimos anos, como MIB – Homens de Preto Internacional, Jumanji: Bem Vindo à Selva, As Panteras, Baywatch – S.O.S. Malibu… Todos com resultado variados. Poucos esperariam então alguma coisa a mais de uma versão em filme do clássico seriado A Ilha da Fantasia, protagonizado por Ricardo Montálban e Hervé Villechaize como Sr. Roarke e Tattoo interpretando anfitriões de uma ilha onde tudo é possível. Até chegar a Blumhouse e resolver transformar o clássico drama de televisão aberta em filme de terror.

O circo estava armado para o filme de Jeff Wadlow (Kick-Ass 2), em seu segundo filme para a Blumhouse após Verdade ou Desafio. Apesar de manter a premissa original, o filme se inspirou muito em outra história com o mesmo mote, A Pata do Macaco, conto sobrenatural de W.W. Jacobs publicado em 1902 e que foi uma das primeiras histórias a ficarem reconhecidas por brincar com o tema “cuidado com o que deseja” – produções como Creepshow, Os Simpsons, Buffy – A Caça Vampiros, A Hora da Aventura e inúmeras outras já se aventuraram nessas águas. E nesse exercício de imaginação, o filme se esforça para dar uma nova ótica à uma premissa já tão explorada enquanto dá uma nova roupagem a um cânone estabelecido.

Dessa vez, aos moldes do clássico do seriado transmitido por seis anos pela ABC, um grupo jovem e estereotipado chega à tal Ilha da Fantasia, onde são recebidos por Sr. Roarke (Michael Peña, de Homem Formiga), que promete que tudo que anseiam será realizado, mesmo os desejos mais impossíveis – pois como logo vemos, a Ilha não é apenas arroubo de um milionário, mas também dotada de uma magia particular de realizar desejos – mas sempre com um preço de “ter sua conclusão natural”, como o roteiro sempre lembra. 

Se há algo a ser criticado logo de partida é o roteiro truncado; e com problemas tonais. Há uma ideia divertida de dialogar com outros gêneros à lá O Segredo da Cabana, onde há um segredo sombrio entrelaçando cada historieta, que passeiam entre comédia, guerra, drama familiar e torture porn. Mas esse mistério, estilo Agatha Christie é mais consolidado lá pelo final, onde o filme sofre com (muitas) reviravoltas e fica um tanto confuso sobre o que estava sendo contado. Há vilões óbvios e maléficos, vilões torturados, vilões camaleônicos… Tudo em quantidade o suficiente para causar o pensamento que o filme seria mais fluido caso contasse uma história por vez. 

A Ilha da Fantasia (2020)

Mas nem tudo são trevas; a performance de Michael Peña não tenta vender a imagem de anfitrião charmoso e seu Sr. Roarke é um homem sombrio e torturado, uma persona que faz mais sentido enquanto o filme avança mas que de início parece um tanto estranho um homem tão sério em um clima de festa generalizada. Seu arco, por ser o que menos sofre com reviravoltas-surpresa, também é um dos mais interessantes a serem destacados aqui – é puramente a exploração da questão “qual o sonho de um homem que vende sonhos”?

Ao tentar brincar com variados gêneros, o co-roteirista (com Chris Roach e Jillian Jacobs, também de Verdade ou Desafio) e diretor Wadlow nem sempre consegue tornar tudo interessante; a empresária Gwen vive um drama burocrático e o policial Patrick embarca em uma guerra mal dirigida; enquanto isso, a torturada Melanie e a vítima Sloane tentam fugir da ilha em um clima de aventura pulp ao lado do esquisito detetive Damon (Michael Rooker, de Guardiões da Galáxia e The Walking Dead), enquanto os cômicos irmãos adotivos J.D. e Brax tem sua festa colorida interrompida por mafiosos russos em um nível de absurdo que lembra comédias politicamente incorretas dos anos 80. No final das contas, a pergunta que parece ecoar é se o filme é sério, escrachado ou um produto desconjuntado entre as duas propostas?

A Ilha da Fantasia (2020)

Dito isto, A Ilha da Fantasia consegue filmar momentos até interessantes, como quando Melanie, que sempre quis se vingar de Sloane, a tortura numa cadeira até perceber que a fantasia é real, em um jogo de voyeurismo dentro de voyeurismo – pois a personagem também está se filmando enquanto executa o ato – que brinca com o nosso desejo de, quando entramos em uma sessão para ver um filme de terror, até onde está o nosso limite, o quanto queremos que aquilo seja verdade. Configura-se, ao lado da performance de Peña, como um dos melhores momentos do filme.

De qualquer forma, o sucesso do filme (47 milhões de bilheteria contra um orçamento de 7) comprova que a Blumhouse continua uma produtora relevante. Decerto suas abordagens sopram frescor de ideias em uma aborrecida indústria até então perdida em figurinhas fáceis como os assassinos slasher ou animais anabolizados. Após alcançarem a fama com a franquia found footage Atividade Paranormal e fazer o terror com temas políticos na franquia Uma Noite de Crime, ganhando no processo dois prêmios de Melhor Roteiro na Academia por Corra! e Infiltrado na Klan, transformar um praticamente inofensivo e hoje cafona seriado de televisão aberta em um filme (mais ou menos de terror)?

A Ilha da Fantasia (2020)

É esse pensamento fora da caixinha, financiando filmes baratos que rendem muito, que colocaram a Blumhouse onde está. O resultado pode até não ser dos melhores, mas ninguém pode dizer que não é, no mínimo, interessante e atraente. Em um mundo de adaptações, recriações e reboots, a Blumhouse colocou um diferencial até nisso – e quem diria, em um filme respeitoso, que valoriza o cânone de cada elemento clássico da mídia original (como mostra a piada ao final) sob um novo prisma. Por isso, mesmo em seus momentos ruins, a casa de Jason Blum continua relevante e singular para uma indústria cada vez mais monopolizada. 

Um grande momento
Meredith descobre com Sloane os limites entre ilusão e terror de verdade.

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.
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