Crítica | Festival

Los fuertes

(Los fuertes, CHL, 2019)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Omar Zúñiga
  • Roteiro: Omar Zúñiga
  • Elenco: Samuel González, Antonio Altamirano, Marcela Salinas, Rafael Contreras, Nicolás Corales, Luis Montoya
  • Duração: 98 minutos
  • Nota:

É bom encontrar de vez em quando encontrar narrativas tão simples que suas qualidades sejam realçadas pelo vazio, pelos silêncios, pela delicadeza, pela forma mais crua e facilitada de contar uma história. Nada a ver com pobreza, estética ou de linguagem; encontrar uma forma menos rebuscada de chegar a um ponto importante, sem precisar recorrer a floreios e invencionismos. O cineasta chileno Omar Zuñiga há 5 anos atrás lançou uma pepita de 30 minutos que saiu do Festival de Berlim com o prêmio Teddy (dedicado a projetos de temática LGBTQI+) de melhor curta, que acabou se desdobrando nesse último concorrente da competição latina de Gramado, Los fuertes.

Como Daniel Ribeiro desenvolveu aqui com o duo Eu Não Quero Voltar Sozinho e Hoje eu Quero Voltar Sozinho, curta e longa que expandem a mesma história, o diretor realça a narrativa de Lucas e Antonio saída de San Cristóbal para esse belo longa metragem que busca o mínimo de recursos para atingir seus pontos, que são igualmente modestos. A consciência dessa limitação não o restringe, pelo contrário, liberta o filme para abraçar essa sincera desconstrução em torno das normas habituais do que se espera de um produto cinematográfico, com pontos altos, clímaxes etc…, Zuñiga dá uma rasteira nas convenções e realiza um filme que está sempre no limiar dos acontecimentos.

Los fuertes

Narrando o encontro que se move da atração física para tornar-se uma paixão incontrolável entre dois jovens homens numa cidade remota e litorânea no sul do Chile, a trama dos 95 minutos é basicamente essa. Existem caminhos que se bifurcam em determinado momento do roteiro, abrindo uma fresta mínima nessa tranquilidade, mas dessa matéria-prima tão modesta se constrói um aguçado terreno emocional e social que nos surpreende pela ausência. Sob a lupa, o filme investiga essas relações humanas não apenas entre os dois, mas se preocupando com esse entorno geográfico que parece sempre nos situar em um passo falso, que se compreende cada vez mais positivamente frugal.

Em projetos onde casais homossexuais sejam o foco, o cinema acostumou a desenvolver um padrão a seguir ligado a sofrimentos extremos, dramas existenciais a respeito de aceitação e autoaceitação, certa violência pontual em determinado momento, e um final que varia entre o trágico e o triste, e Los fuertes parece se divertir criando armadilhas e pequenas situações que deem a impressão de descambar exatamente para esses lugares, mas raramente essas ameaças se concretizam, e o que temos de maneira geral é um filme que entende que esses clichês são o que já vimos tantas vezes até serem banalizados, e sutilmente Zuñiga sai desses lugares.

Los fuertes

As performances de Samuel Gonzalez e Antonio Altamirano são um capítulo à parte. Já integrados pelo trabalho anterior em San Cristóbal, os rapazes tem química transbordante que faz com que torçamos pelo casal desde o primeiro olhar trocado entre os dois. Suas atuações são complementares porque assim o são Lucas e Antonio, o primeiro um bicho urbano prestes a fugir, o segundo uma cria local com raízes que ele não ousa cortar. Há muito prazer e muita vida em ambos, e o encontro entre eles não apenas incendeia a tela, porque se trata de um roteiro onde cada cena elabora nova camada para sua relação e para seus personagens, fazendo com que eles possa explorar não apenas o naturalismo mas essencialmente parecerem surpreendidos junto com o espectador com cada nova curva e nova decisão que precisem tomar.

Nessa toada cotidiana, o filme nem sempre completa algumas lacunas ao redor dos protagonistas, e ao menos duas cenas parecem deslocadas do clima geral, apenas pra apontar saídas fáceis e dramaticamente intrusivas. Mas tirando essas breves interrupções do quadro normal de acontecimentos cotidianos de Los fuertes, a narrativa segue em clima crescente de entrosamento e disponibilidade, até chegar a encruzilhada esperada. Um exemplar positivamente raro de se encontrar em narrativas de minorias, onde apenas o amor exala e as impossibilidades são causadas não pelo externo, mas exatamente pelo movimento natural das coisas.

Um grande momento
Lucas e Antonio no dia seguinte

[48º Festival de Gramado]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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